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Mário Soares e Lula debatem os 40 anos da Revolução dos Cravos

 Pecado do Instituto Lula

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou nesta sexta-feira (25), em Lisboa, das comemorações dos 40 anos da Revolução dos Cravos. Ele participou do debate “O 25 de Abril visto de Fora”no Museu do Oriente, com o ex-presidente português Mário Soares, o jornalista francês Dominique Pouchain e o presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardim.

Em um feriado de sol em Lisboa, com a cidade tomada por manifestações, cartazes e cravos lembrando a retomada da democracia, o debate discutiu a influência que a revolução que acabou com a ditadura em Portugal teve no exterior, com seu impacto sobre a independência dos países africanos.

Mário Soares lembrou sua volta do exílio no início da revolução, vindo da Alemanha e retornando a Portugal, e depois, seu esforço de viajar pela Europa, inclusive ao Vaticano, para explicar a revolução. Ele explicou como a revolução foi feita em reação ao enorme sacrifício dos militares nas guerras coloniais, que depois entregaram o poder aos civis. “É extraordinário ver as manifestações hoje de apoio ao 25 de Abril, 40 anos depois.”

O ex-presidente português apresentou Lula como um “grande amigo de Portugal”. Lula falou sobre os exilados portugueses que viveram no Brasil, como Miguel Urbano Rodrigues, o general Humberto Delgado e o capitão Henrique Galvão.

Lula também lembrou a solidariedade entre exilados portugueses e brasileiros na França, como na livraria aberta por Mário Soares em sociedade com dois brasileiros: José Maria Rabello e Miguel Arraes. Lula também ressaltou o papel de Brizola na solidariedade entre brasileiros e lusitanos na luta pela democracia nos dois lados do Atlântico.

Lula rememorou o impacto da revolução dos Cravos na África, onde as antigas colônias portuguesas ganharam a independência em um desdobramento do retorno da democracia em Portugal.

Lula encerrou pedindo que a juventude continue lutando por um mundo melhor. “O mundo, o novo mundo com o qual sonhamos há gerações, amigo Mário, ainda está por ser feito. É o desafio dessa juventude que tem um passado de que se orgulhar e um imenso futuro a construir.”

Leia abaixo a íntegra do discurso de Lula sobre os 40 anos da Revolução dos Cravos:

Antes de tudo preciso registrar a sempre renovada alegria por estar mais uma vez em Portugal, esse país admirável, o único em que nós, brasileiros, nos sentimos realmente em casa.

Ao caminhar pelas ruas de Lisboa, somos surpreendidos por visões familiares que se sucedem: aqui é a azulejaria maranhense, ali o barroco de Ouro Preto e Mariana, acolá o casario da Lapa carioca e mais adiante as igrejas de Salvador, na Bahia.

Ao prazer de estar de novo na terra dos nossos ancestrais soma-se, desta vez, uma honraria muito especial. Estamos aqui para celebrar os quarenta anos da Revolução dos Cravos, o mais importante acontecimento político de Portugal no Século XX.

No amanhecer de 25 de abril de 1974 os ventos da liberdade escancararam portas e janelas e varreram o país. Despertado pelos acordes de “Grândola, Vila Morena”, naquela manhã de abril o povo português anunciou ao mundo que meio século de tirania tinha chegado ao fim.

Para nós, brasileiros, a notícia da revolução portuguesa chegou como um bálsamo que nos encheu de esperanças. Quando o Movimento das Forças Armadas tomou as ruas de Portugal, já fazia dez anos que o Brasil vivia sob uma implacável ditadura militar.

Olhávamos para Portugal com um misto de saudável inveja e sincera admiração. Sonhávamos com o dia em que voltariam a soprar daqui para lá os ventos que quinhentos anos antes haviam conduzido as caravelas de Pedro Álvares Cabral rumo ao Brasil – desta vez levando à Terra de Santa Cruz o pólen da liberdade.

Quando vocês conquistaram a Liberdade, compreendemos que também nós poderíamos recuperá-la. Aquele ano de 1974 terminou, no Brasil, com a vitória da oposição nas eleições para um terço do Senado. Foi uma pequena brecha aberta na muralha da opressão, que o movimento democrático e popular alargaria pela década seguinte.

A Revolução dos Cravos tocou de tal forma a alma brasileira, que o grande compositor Chico Buarque de Holanda, numa parceria com o moçambicano Ruy Guerra, conseguiu irritar duplamente a ditadura militar, na canção Fado Tropical.

Os censores já viam a música com suspeição, por causa do verso que dizia:

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um império colonial

 Depois do 25 de abril, o rancor aumentou ainda mais, por que outro verso da canção ganhou um novo e libertário sentido:

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

Os censores não tiveram outra saída senão recolher os discos e inutilizar com estilete, em cada um deles, a faixa com a canção subversiva.

A Revolução dos Cravos estreitaria ainda mais os seculares laços entre portugueses e brasileiros. Da noite para o dia passaram a chegar a Lisboa centenas de exilados brasileiros que haviam se dispersado pelo planeta em uma diáspora fragmentada por vários países.

Muitos dos meus compatriotas que aqui aportaram haviam sobrevivido, seis meses antes, ao cruel golpe militar chefiado pelo general Augusto Pinochet que pôs fim ao governo constitucional do presidente Salvador Allende. Eram exilados de duas ditaduras latino-americanas,

A generosidade com que aqueles brasileiros foram recebidos por vocês, portugueses, robustecia o velho cimento da solidariedade que nunca deixou de existir entre os dois povos – a despeito das divergências políticas que pudessem separar os respectivos governos.

Foi assim nos intermináveis 48 anos do salazarismo, quando o Brasil abriu suas portas e recebeu como filhos as dezenas de vítimas de perseguições políticas em Portugal.

Poetas, dramaturgos, artistas plásticos e ativistas políticos silenciados por aquele regime deitaram raízes no Brasil.

Não é preciso puxar muito pela memória para recordar alguns personagens. Miguel Urbano Rodrigues, mesmo sendo um intransigente militante do Partido Comunista Português, viveu durante décadas no Brasil como editorialista do jornal O Estado de São Paulo.

Assim como ele, socialistas de diversos matizes e anti-salazaristas de incontáveis tendências ocupavam cátedras universitárias, editavam jornais e livros na pátria de adoção.

Mas não foram apenas artistas e intelectuais perseguidos que buscaram refúgio entre nós. Seria injusto omitir aqui os nomes de dois militares que não viveram o suficiente para ver a bandeira da liberdade tremulando em mastros lusitanos.

O primeiro deles é uma figura de quem o nosso Mário Soares deve guardar as melhores lembranças. Refiro-me ao general Humberto Delgado, postumamente promovido ao posto de Marechal da Força Aérea, e cujos restos mortais encontram-se hoje depositados no Panteão Nacional.

O segundo é o capitão Henrique Galvão, personagem quixotesco que em 1961 capturou em alto mar o transatlântico “Santa Maria”, e que terminaria seus dias em 1970, exilado em São Paulo.

O golpe militar de 1964 fechou as portas do Brasil o para os refugiados portugueses, mas nem essa fatalidade foi capaz de separar os que lutavam pela democracia dos dois lados do oceano.

As duas ditaduras e a inefável mão do destino se encarregariam de juntar na capital francesa três grandes personalidades da nossa política. A primeira delas é o nosso anfitrião de hoje, Mário Soares. Exilado na França, Mário montou em Paris a pequenina Livraria Portuguesa, ponto de encontro permanente da comunidade anti-salazarista lá residente.

Logo se juntariam a ele os brasileiros Miguel Arraes, ex e futuro governador de Pernambuco, e José Maria Rabelo, jornalista mineiro que em menos de dez anos enfrentara golpes de estado no Brasil, na Bolívia e no Chile.

Rebatizada com o nome de Livraria Portuguesa e Brasileira, a portinha do número 12 da rua das Escolas, em Paris, passaria a ser também o ponto de convergência dos exilados brasileiros.

Completo essa lista pessoal lembrando dois companheiros que se encontram no topo da fraternidade luso-brasileira: Álvaro Cunhal e Leonel Brizola.

Tivemos divergências, meu amigo Mário, com um e com outro. Mas aprendemos a respeitá-los  por suas grandes qualidades: a coerência política e a coragem com que se dedicaram à causa da liberdade e do socialismo.

Recordo essas trajetórias pessoais como parte de um processo mais amplo da História. É o processo que nos leva adiante, sempre, na busca de um mundo mais justo e de uma humanidade cada vez mais fraterna.

Meus amigos, minhas amigas,

Afortunadamente, a revolução que vocês fizeram era grande demais para se encerrar em si mesma. O poder irradiador da liberdade conquistada em Lisboa logo chegaria a outras plagas.

O ano de 1974 ainda não havia terminado quando você, Mário, já na condição de Ministro dos Negócios Estrangeiros, assinou os Acordos de Argel com o comandante Pedro Pires, pelos quais o Portugal reconhecia a República da Guiné-Bissau como estado soberano.

Era o início do processo que levaria as antigas colônias africanas a conquistar a independência.

A soberania das antigas colônias foi um desdobramento da revolução que teria consequências diretas no futuro do Brasil.

A partir das relações diplomáticas e culturais com os países lusófonos do continente africano, fomos descobrindo aos poucos todo o potencial de um reencontro histórico entre os povos da África e do Brasil.

Fomos unidos à força, pela brutalidade do tráfico de escravos, mas o tempo nos transformaria em povos irmãos, por tudo que os africanos nos legaram material e culturalmente.

O Brasil é simplesmente a maior nação em população negra fora da África. Ao longo do meu governo visitei 26 países africanos em 33 viagens — e de pedir perdão, em nome do povo brasileiro.

Estamos construindo relações políticas, econômicas e de cooperação em alto nível. O comércio do Brasil com os países da África cresceu mais de quatro vezes desde 2003.

Tive a honra de inaugurar, no Brasil, a Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, que nos une a todos – portugueses, brasileiros e africanos – na  construção comum do desenvolvimento.

Meus amigos, minhas amigas,

Enormes foram as mudanças em Portugal, no Brasil e no mundo ao longo desses 40 anos. Toda uma geração nasceu e cresceu sem ter experimentado diretamente o gosto amargo da ditadura, do atraso e da iniquidade.

A Revolução dos Cravos e todos os processos transformadores, em Portugal e no Brasil, devem chegar às novas gerações como um estímulo para que não deixem de sonhar com um mundo novo e melhor.

Os ventos da liberdade e da justiça, quando sopram, nada pode impedi-los. Este é o sentido mais forte da Revolução dos Cravos nos dias de hoje.

Este bravo povo português, que desafiou os mares quando eles eram a fronteira do medo, que ensinou à Europa o caminho de um novo mundo, sempre será capaz de novas proezas.

Quem soube vencer um regime odioso – que aos olhos estrangeiros parecia eterno em seus 48 anos – poderá superar qualquer obstáculo.

Um povo que soube renovar seu país, tornando-o uma economia pujante, que em pouquíssimo tempo alcançou os mais altos padrões sociais, não pode desistir de sonhar.

É isso que temos a dizer aos que nem eram nascidos 40 anos atrás:  Tomem de novo aqueles ventos, tomem outra vez aqueles cravos, e sigam adiante.

O mundo, o novo mundo com o qual sonhamos há gerações, amigo Mário, ainda está por ser feito. É o desafio dessa juventude que tem um passado de que se orgulhar e um imenso futuro a construir.

Muito obrigado.

O capital está vencendo. Como a esquerda pode barrá-lo? Artigo de Tarso Genro)

A  lenta, mas firme desagregação da esquerda européia depois da quebra da URSS, está  ancorada em fatores “objetivos”, tais como as mudanças no padrão de acumulação capitalista -“pós-industrial” como já analisavam alguns economistas  há  trinta anos – que atravessaram a sociedade de alto a baixo. Estas mudanças alteraram  as expectativas políticas, o modo de vida, as demandas do mundo do trabalho e da constelação de prestadores de serviços, dos técnicos das atividades da inteligência do capital, dos sujeitos dos novos processos do trabalho e de amplos contingentes da juventude. Estes, originários de famílias das classes médias, que perderam o seus “status” social e o seu poder aquisitivo, adquiridos na era de ouro da social-democracia. A social-democracia não se renovou, nem o comunismo, para responder a estas transformações.
A desagregação, todavia,  também está ancorada na ausência de respostas – fator “subjetivo” dominante -dos núcleos dirigentes da esquerda comunista e social-democrata. Esta falta de formulação superior pode, parcialmente, ser atribuída a uma ausência de “caráter” – pela “acomodação” teórica e doutrinária dos seus dirigentes – mas este não é, certamente, o fator preponderante: o vazio de respostas de esquerda à nova crise do capital tem outras determinações mais fortes. Mesmo aqueles que se jogaram para uma posição “movimentista” – mais, ou menos, corporativa – aparentemente radical  (ou os que se propuseram a enfrentar o retrocesso com práticas de Governo ou com novas elaborações no âmbito acadêmico) não conseguiram – nos seus respectivos espaços de interferência – abrir novos caminhos que se tornassem hegemônicos.

A adesão da social-democracia francesa, italiana, espanhola e portuguesa – para exemplificar -aos remédios exigidos pela União Européia (leia-se Alemanha), põe por terra as esperanças que algum governo europeu, num futuro próximo,  possa inspirar mesmo uma saída social-democrata novo tipo à crise atual. Tudo indica que a recuperação da Europa capitalista virá por um canal “social-liberal”, depois de um longo período de reestruturação das classes em disputa. Teremos perdas significativas para os trabalhadores do setor público e privado, para as  micro, pequenas e médias empresas, que são responsáveis pela maior parte da oferta de empregos. A isso se agregará uma forte pressão sobre os imigrantes e a crescente redução dos gastos públicos, destinados à proteção social. Paralelamente a este desmantelamento tudo indica que crescerão as alternativas nacionalistas de direita, de corte autoritário e mesmo neo-fascistas, pois o vazio que gera desesperanças pode fazer renascer o irracionalismo das utopias da direita extrema.

Se isso é verdade, o nosso problema brasileiro é bem maior do que parece. A contra-tendência instituída no Brasil, que criou dez milhões de empregos no mesmo período em que foram destruídos mais de sessenta milhões de postos de trabalho em todo o mundo, está sob assédio. O nome deste assédio é a garantia do pagamento rigoroso – com juros elevados – da dívida pública, para que o sistema financeiro global do capital possa ter reservas destinadas a bancar as reformas e por em funcionamento um novo  ciclo de crescimento das economias do núcleo orgânico do capitalismo global.

Cada uma das alternativas que sejam propostas para o próximo período, visando desenvolver o país, combatendo as suas desigualdades sociais e regionais – sejam elas de inspiração neo-keinesiana ou socialista – só poderão ter efetividade e capacidade de implementação política se mostrarem de maneira coerente como elas se comunicam, acordam ou confrontam, com este cenário global. Ou seja: como as alternativas poderão ser efetivas no território,  numa situação de domínio integral do capital financeiro sobre os cenários econômicos e políticos do mundo.

O internacionalismo hoje é, conjunturalmente,  mais democrático e social do que propriamente  “proletário”, naquele sentido clássico que foi proposto pelo filósofo de Trévèrs. As conquistas democráticas e sociais das nações estão bem mais ameaçadas depois da crise que se iniciou com o “sub-prime”, pois os governos são vítimas de uma pressão brutal para reduzir, ainda mais, a sua autonomia política e assim integrar-se, pacificamente,  nas contaminações globais da crise.  Apresentar soluções internas, portanto, é também apresentar alianças de sustentação destas políticas no cenário internacional, para que as propostas não sejam voluntaristas ou demagógicas

Caso as formações políticas e os governos não consigam apresentar alternativas aceitas pelo senso comum, dificilmente terão apoio popular para governar. O seu fracasso – e o povo sabe disso – terá reflexo imediato como aniquilamento das conquistas de inclusão social, econômica e produtiva, que ocorreram no Brasil nos últimos dez anos. Este é, na verdade – nos dias que correm – o dilema, tanto demo-tucano e marino-campista, como do extremismo corporativista e movimentista: ambos deveriam responder qual é, nos quadros da democracia política, o efeito imediato na vida das famílias – especialmente das chamadas “novas classes médias” e  dos trabalhadores – dos seus projetos concretos de Governo, demonstrando como é possível aplicá-los pela via democrática.

Os ataques à Petrobras, que vem sendo modulados, tanto pela direita neoliberal como pelas oposições anti-PT e anti-Lula – de corte direitista e esquerdista – talvez sejam a síntese mais representativa desta dificuldade. O ataque, turbinado pela grande mídia,  dá espaço para estes grupos políticos não dizerem,  de forma clara  (se fossem eleitos),  o que fariam com a economia e com as funções públicas do Estado, no próximo período. Unidos, esquerdismo e neoliberalismo, desta vez no ataque ao Estado – não somente ao Governo – ficam absolvidos de fazerem propostas para dizerem como o país deverá operar, gerando emprego e renda,  ao mesmo tempo que se defende da tutela do capital financeiro  e das pressões da dívida pública.

A desmoralização de um ativo público da dimensão da Petrobras, os ataques ao seu “aparelhismo” político, a crítica aos gastos públicos excessivos (programas sociais, na verdade), os ataques às políticas do BNDES – de forma combinada com um permanente processo de identificação da corrupção com o Estado e com os Partidos em geral – fecham um quadro completo do cerco ao país: liquidem com a Petrobras e teremos o Estado brasileiro pela metade; acabem com os gastos sociais e teremos uma crise social mais profunda do que a das jornadas de junho; restrinjam o BNDES e o crescimento – que já é pífio – se reduzirá ainda mais;  desmoralizem os partidos e a política e a técnica neoliberal substituirá o contencioso democrático.

Como os militares estão aferrados às suas funções profissionais e constitucionais e não estão para aventuras, o golpismo pós-moderno vem se constituindo através da direita  midiática. Esta, se bem sucedida no convencimento a que está devotada, encarregaria um novo Governo social-liberal da desmontagem do atual Estado Social “moderado”,  obtido no Brasil num cenário mundial adverso.

Lido este cenário de refluxo da esquerda e de retomada dos valores do neoliberalismo selvagem, que devasta as conquistas da social-democracia européia, pode-se concluir que o debate verdadeiro no processo eleitoral em curso  – momento mais importante da nossa democracia republicana concreta – é o seguinte: ou o projeto lulo-petista se renova, baseado no muito que já fez e conquista novos patamares de confiança popular; ou o refluxo direitista liberal, que assola a Europa, chegará em nosso país pela via eleitoral, legitimado por eleições democráticas.

A semeadura da insegurança, que precede as inflexões para direita, está em curso em todos os níveis e para responder a esta sensação manipulada – que vai da economia à segurança pública – é preciso dizer de maneira bem clara quais os próximos passos contra as desigualdades e contra perversão da política e das funções públicas do Estado. Chegamos a um momento de defesa política de um modelo novo combinado com a velha luta ideológica.

Recentemente o MST, no seu Congresso Nacional,  deu uma demonstração de acuidade política e clareza programática. Fez a vinculação da questão agrária do país a um novo conceito de reforma:  vinculou as demandas particulares dos deserdados da terra à produção de alimentos sadios para os cidadãos de todas as classes, numa verdadeira rebelião agroecológica, que faz a disputa no terreno da produção e da política. Particularmente ele  se reporta àqueles que mais sofrem  os efeitos “fast-foods”, turbinados por agrotóxicos  e por malabarismos genéticos, cujos efeitos sobre a espécie humana ainda não são avaliáveis na sua plenitude.

Trata-se, na verdade, da superação de uma demanda particular de classe – uma reforma agrária baseada na mera redistribuição da propriedade – para um plano universal de interesse da totalidade do povo, sem a perda das suas raízes classistas. Belo exemplo que vem do povo para ser absorvido e renovar a  cultura política da esquerda.  O capital financeiro, no mundo, está vencendo, mas pode ser barrado pela imaginação criadora de uma esquerda que seja consciente da grandeza das suas tarefas nos  momentos de refluxo. O MST deu um belo exemplo.  A esquerda o seguirá?

Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar (Tarso Genro)

“Por enquanto, a “utopia concreta está presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista” . O “levantar âncoras” poderá ser uma nova Assembléia Nacional Constituinte”, no bojo de um amplo movimento político -por dentro e por fora do Parlamento- inspirado pelas jornadas de  junho: com partidos à frente  sem aceitar a manipulação dos cronistas do neoliberalismo, abrigados na grande mídia.”

O Brasil já não é mais o mesmo, mas os fundamentos do Brasil atual precisam de algumas reformas estruturais para que possamos ser outro país integralmente.


Tarso PTO Brasil ficou em segundo lugar, em 2013, no ranking entre os 90 países que elevaram taxa de juros, só perdendo para a República de Gâmbia, fechando-a em 10% ao ano. Paralelamente o CEBL (sigla da instituição em inglês) – Centro de Pesquisas Econômicas e Negócios – registra que em 2023 seremos a 5ª economia do mundo. Prevê, aquela instituição insuspeita de proteger nossos governos, que alcançaremos daqui a dez anos um PIB de 3,2 trilhões de dólares com o crescimento, portanto, de 1 trilhão de dólares no PIB entre 2013 e 2023.

Tarso Genro* na Carta Maior

Para que tenhamos uma ordem de grandeza relativa do que está acontecendo em nosso país,  lembremos que a proposta do arquiteto da política de reformas na China Popular, Deng Xiaoping (1904 – 1997) foi chegar no seu país em 2050  – numa nação de 1 bilhão e 300 mil habitantes no dias de hoje – a um PIB de 6 trilhões de dólares, “quando teremos” – dizia Deng – “uma renda per capita, de 4 mil dólares”,  com uma população de  1,5 bilhão de  pessoas.

Quatro mil dólares, com uma forte distribuição de renda já  teria sido um impacto gigantesco no mercado interno em 2050, considerando ainda que a China – já nos próximos 10 anos – portanto até 2024, retirará da miséria e da pobreza mais duzentas milhões de almas. Mas, as previsões do Presidente Deng “furaram”: a China já chegou em 2012 a um PIB de 8,28 trilhões de dólares,  mesmo reduzindo seu crescimento em função da crise européia e americana, promovendo já em 2013 uma renda “per capita” de mais de 9.000 dólares ano.

A China é um Estado Nacional unificado há mais de 2.5OO anos e fez, recentemente, uma poderosa Revolução Popular. Esta revolução instaurou no poder  um Partido Comunista que centralizou com poderes quase absolutos, o Governo e a Política. Em sucessivas fases de disputas permeadas por ações anárquicas de violência a China abriu uma etapa nacional-desenvolvimentista, integrada na economia global, que preparou o país para ser a economia mais forte do Século. No século XXI a China pelo menos dividirá hegemonia sobre o mundo, com os países capitalistas mais desenvolvidos, mas certamente em condições de superioridade militar e econômica.

Sobre o caso chinês – seu processo de desenvolvimento econômico e social acelerado – podemos prestar atenção exclusivamente nos seus métodos não democráticos (dentro da perspectiva das democracias ocidentais)  ou, por escolha ideológica, só no fato histórico formidável de um país que tirou da miséria e da doença “um Brasil e ½”, em mais ou menos trinta anos. Ou, se escolhermos,  podemos fazer uma terceira opção e prestar atenção – para fazer justiça ao seu povo e aos seus lutadores e dirigentes –  nos dois processos: seu crescimento espetacular, combinado com a promoção social dos mais pobres, num regime político não democrático para os nossos olhos,  num país que até há pouco foi praticamente feudal, tornou-se “agrário” e  depois industrialmente atrasado.

Partir deste olhar mais abrangente para concluir se aquilo que acontece na China é, ou não, um progresso humanista de cunho social, que tem elementos importantes de valor universal, não é um olhar manipulatório. O que ocorre ali pode ter sido a única saída de uma civilização de 5.OOO anos, cujos conteúdos culturais e políticos jamais experimentaram os processos de modernização política e social semelhantes à Revolução Francesa, à Revolução Americana ou à Gloriosa Revolução Inglesa. As chacinas coloniais e imperiais, que estas mesmas revoluções levaram adiante, não invalidaram as suas conquistas civilizatórias, sem “luzes” e sem humanidade, que  fomentaram  o desenvolvimento capitalista como progresso nos seus moldes clássicos.

Para pensar o Brasil como 5ª. economia mundial,  creio que devemos adotar a terceira hipótese: ver o processo como um todo, sem descarte do compromisso com a democracia e a República, com os direitos humanos e com a sustentabilidade. Verificar, a partir daí,  o que podemos aproveitar do universal que tem a experiência chinesa, para que cheguemos em 2023, não somente como quinta economia mundial, mas no mínimo  a 5ª. em distribuição de renda, 5ª.em educação, 5ª.em sustentabilidade, 5ª. em melhor saúde pública, 5ª. em melhor mobilidade urbana, 5ª. em respeito aos direitos humanos.

Parto desta reflexão porque de nada adianta ser a quinta economia do mundo, mantendo as desigualdades sociais e econômicas que ainda existem no Brasil.
Carregamos  nas costas do progresso a exclusão, a violência,  a insegurança e os brutais contrastes entre ricos e pobres, que não somente são geratrizes de todos os tipos de violência, mas também se apóiam na criação de empregos de baixa qualidade e qualidade de vida, material  e cultural, muito inferior ao possível e desejável nas grandes regiões metropolitanas.

Nossos governos federais não conseguiram uma correlação de forças favorável, não só para obter o volume de recursos necessários para financiar a saúde pública, taxando as movimentações financeiras, como também não conseguiram condições políticas para uma Reforma Tributária,  que pudesse reordenar de forma mais democrática e eficiente as relações federativas, no plano econômico-financeiro.

O Prefeito Fernando Haddad, por exemplo, neste momento sofre uma forte campanha de difamação política pela grande imprensa por pretender adotar um mínimo de justiça tributária, com a simples correção do valores do IPTU – o que fizemos em 1990 em Porto Alegre com apoio dos Conselhos Regionais do Orçamento Participativo e dos movimentos sociais, que hoje frequentemente tornam-se visíveis somente  em demandas mais imediatas.

Tivemos no país avanços significativos na distribuição de renda, na inclusão social e educacional, na defesa dos pobres do campo, na criação de milhões de empregos, que dão um nível de subsistência mínimo aos assalariados da nação.
Em compensação fomos “obrigados”, pelo “mercado”,  a aumentar a taxa de juros, mesmo com índices reduzidos  de crescimento na economia, o que implica em reconhecer que o Brasil já não é mais o mesmo, é verdade, mas os fundamentos do Brasil atual – que não é mais o mesmo – precisam de reformas para que possamos ser outro país, integralmente.

A grande questão política, para a esquerda que recusa a fantasia histórica de que está em curso uma revolução socialista no mundo ou que há possibilidades concretas de um horizonte socialista à médio prazo, é a seguinte: o que fazer para que a democracia “volte a ter sentido”, como diz Boaventura Souza Santos? Até agora o Estado Democrático não criou condições para interferir, de molde a proporcionar uma taxa de juros compatíveis com os níveis internacionais. Nesta questão, estamos apenas à frente da remota Gâmbia  (país da África Ocidental com uma população ligeiramente superior a porto Alegre), o que nos obriga a pensar quais as mudanças estruturais que “devemos”, para que a  taxa de juros, portanto, compatibilize-se com o processo de desenvolvimento?

Deixando de lado a fantasia de que se trata, apenas, de arbitragem voluntarista da Presidenta ou do Banco Central e tendo consciência que, na verdade, esta deve ser uma “guerra mundial” política, para vencer um tema que começa por decisões  internas sobre o modelo de desenvolvimento. Lembro que a China adotou na sua estratégia –como escreveu Perry Anderson-   com “a combinação do que é agora, de acordo com qualquer medida convencional, uma economia predominantemente  capitalista, com o que todavia é, inquestionavelmente –de acordo com qualquer medida convencional- um Estado comunista, sendo ambos os mais dinâmicos da sua classe até hoje”. Ou seja: planejamento de longo curso através do Estado,  dinâmica de mercado capitalista contida por regras de distribuição “pétreas”, monolitismo político para aplicação das normas do novo modelo.

Se quiséssemos enquadrar nas categorias do marxismo tradicional o que ocorreu na China após os anos sessenta,  poder-se-ia dizer que a Revolução Cultural  como forma específica de revolução política “permanente”,  foi sucedida por uma “Nova política Econômica”  (a NEP leninista),  de longo prazo, que tende a se tornar economia “permanente”. Assim como o sujeito político (Partido-Estado) cria o mercado e suas relações, estas relações novas recriam o sujeito (Partido-Estado), que será permanentemente outro. Como “outro”, mudado pela nova sociedade que ele produziu, é que vai reportar-se aos resultados obtidos, tanto para aumentar as conquistas dos trabalhadores no novo modelo, bem como para aumentar ou diminuir as rendas das classes ricas, que estão surgindo neste processo.

O próprio capitalismo, sem perder seu eixo e sua fúria, assim como o “modelo chinês”, vão esbarrar em situações-limite, nem sempre em função das suas contradições internas, mas muito fortemente em função dos limites da naturalidade (crise de fornecimento de energia fóssil, destruição ambiental ampliada, esgotamento do modelo produtivo agrícola predatório, esgotamento de recursos naturais não renováveis), cujos efeitos (“estufa” e outros) já são plenamente visíveis. Isso quer dizer que as amarras que impedem hoje as mudanças, no médio prazo, podem ser rompidas e assim será agregada à crítica do capitalismo, não só a crítica aos seus regimes brutais de violência e  exploração que ele semeou no mundo, mas também a possibilidade de liquidação, através dele,  da sobrevivência do gênero humano, o que atinge inclusive aquela parte da sociedade planetária  que  o capitalismo prometeu e deu uma vida melhor.

Para atuar de maneira produtiva neste novo ciclo de lutas, que já se abre com a “rearrumação” internacional, já em curso pela intervenção do modelo chinês, não podemos cair na tentação simplista e despolitizada apresentada, por exemplo, por Michael Löwy, aqui nesta Carta Maior: que só existem duas esquerdas na Europa, uma “oficial, institucional” e outra “radical”: o “sistema” e o “anti-sistema”.

Se é verdade que tal fórmula pode ter eco e dar prestígio em setores radicalizados da academia e entre uma pequena-burguesia com dramas existenciais, em função das crises atuais, promove, como diz Marilena Chauí uma posição “ingênua, que “ninguém leva à sério” e levanta uma barreira à construção de uma nova hegemonia, promovida pelos distintos pensamentos de esquerda, que se expressam numa sociedade civil extremamente complexa, tanto pela via eleitoral, como pelos movimentos sociais mais diversos. Uma sociedade que não mais  se move exclusivamente a  partir dos conflitos entre capital e trabalho, e nem mesmo somente a partir dos choques entre “incluídos” e “excluídos”, mas que expõe suas contradições agudas também em questões relacionadas como a sustentabilidade, as novas relações de família, os novos “modos de vida”,  a diversidade sexual, a expulsão dos imigrantes, a pobreza endêmica nas grandes periferias.

Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral. Não somente celebrando as conquistas que tivemos nestes doze anos, mas sobretudo redesenhando a utopia concreta, pois “o objetivo concretamente antecipado rege o caminho concreto” (Bloch). Isso significa apontar as reformas na política e na economia, necessárias não somente para acabar com a miséria absoluta, mas para antecipar um programa para atacar as brutais desigualdades de renda e de padrão de vida, anunciador de um socialismo democrático renovado.

Por enquanto, a “utopia concreta está presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista” (Altvater). O “levantar âncoras” poderá ser uma nova Assembléia Nacional Constituinte”, no bojo de um amplo movimento político -por dentro e por fora do Parlamento- inspirado pelas jornadas de  junho: com partidos à frente  sem aceitar a manipulação dos cronistas do neoliberalismo, abrigados na grande mídia. Para estes, as organizações políticas são um  estorvo, pois os seus partidos são as suas empresas. Se não mexermos no futuro, daqui para diante, o passado vai recobrar seu peso. E voltaremos aqui no Brasil a uma sociedade inteiramente regulada pelo FMI e pelas agências risco, cuja novidade, provavelmente,  será o velho “choque de gestão”.

(*) Governador do Rio Grande do Sul

o Porto de Mariel, Brasil, Cuba e o socialismo

Dilma e RaulPescado do MidiaCrucis Blog

Tem sido extremamente educativo registrar, aqui em Havana, a reação do povo cubano diante da inauguração do Porto de Mariel. Expressando um elevado nível cultural, uma mirada política aprofundada sobre os fenômenos destes tempos, especialmente sobre a Reunião de Cúpula da Celac que se realiza por estes dias aqui na Ilha, tendo como meta central, a redução da pobreza, os cubanos revelam, nestas análises feitas com desembaraço e naturalidade, todo o esforço de 55 anos da Revolução Cubana feita na educação e na cultura deste povo.

Mariel, uma bofetada no bloqueio

Poderia citar muitas frases que colhi ao acaso, conversando com os mais diversos segmentos sociais, faixas etárias distintas, etc, mas, uma delas, merece ser difundida amplamente. O marinheiro aposentado Jorge Luis, que já esteve nos portos de Santos e Rio de Janeiro, que vibra com o samba carioca, foi agudo na sua avaliação sobre o significado da parceria do Brasil com Cuba para  construir o Complexo Portuário de Mariel. “ Com Mariel,  Brasil rompe concretamente o bloqueio imperialista contra Cuba”, disse. E adverte: “ Jamais os imperialistas vão perdoar Lula e Dilma”. Ele não disse, mas, no contexto do diálogo com este marinheiro negro, atento ao noticiário de televisão, leitor diário de jornal, informado sobre o que ocorre no Brasil e no mundo,estava subentendido, por sua expressão facial, que ficava muito claro porque Dilma é alvo de espionagem dos EUA.

O tom da cobertura do oposicionismo impresso brasileiro, pré-pago, à inauguração do Porto de Mariel, não surpreende pela escassa informação que apresenta, muito menos pela abundante insinuação de que tratar-se-ia apenas  de um gasto sem   sentido,  indefensável, indevido. Ademais, sobram os  rançosos preconceitos de sempre, afirmando que o Brasil estaria financiando a “ditadura comunista”,  tal como este oposicionismo chegou a mencionar que seria esta a única razão para empreender um programa como o Mais Médicos, que salva vidas e que tem ampla  aprovação  da sociedade brasileira.

É necessário um jornalismo de integração

Informações objetivas sobre o significado e a transcendência do Complexo Portuário de Mariel certamente faltarão ao povo brasileiro. Primeiramente, porque o oposicionismo midiático não permitirá sua difusão, numa evidente prática de censura. E, por outro lado,nem o PT ou as forças que sustentam politicamente   o governo Dilma e estas iniciativas robustas da política externa brasileira,  com tangíveis repercussões sobre a economia brasileira, possuem uma mídia própria para esclarecer o significado de Mariel, ante um provável dilúvio de desinformações sobre a sociedade brasileira.

Primeiramente, deve-se informar que o financiamento feito pelo BNDES, algo em torno de um bilhão reais na primeira fase,não se trata de uma doação a Cuba. É um empréstimo, que será pago. As relações bilaterais Brasil-Cuba registram crescimento contínuo nos últimos anos.

Além disso, está condicionado à contratação de bens e serviços na economia brasileira, além de envolver cerca de 400 empresas,sendo, portanto, um dos fatores a mais que explicam porque há contínua expansão no mercado de trabalho brasileiro, com uma taxa de desemprego das mais baixas de sua história. Ao contrário do que ocorre, por exemplo,na Europa, onde aumenta o desemprego e há eliminação de direitos trabalhistas e sociais conquistados décadas atrás.

Dinamização das forças produtivas

Além disso, Mariel vai ser-   por enquanto , Dilma inaugurou apenas a primeira fase  –  o maior porto do Caribe, com capacidade para atracar navios  de calado superior a 18 metros, e  também , podendo movimentar mais de 1 milhão de conteiners por ano. Terá um impacto especial para o comércio marítimo também direcionado ao Pacífico, via Canal de Panamá. Para isto, vale registrar a importância da participação da China, crescente, na economia latino-americana, em especial  com o Brasil. Tanto o gigante asiático como empresas brasileiras,já manifestaram interesse em instalarem-se na Zona Econômica Especial a ser  implantada em Mariel, onde também já foi construída uma rodovia moderna, estando em construção, uma ferrovia. De alguma maneira , Havana retoma uma posição de destaque no comércio marítimo internacional,  pois já foi o maior porto da América Latina,  ponto de conexão de várias rotas, tendo sido, por isso mesmo, uma cidade com mais de 70 por cento de habitantes portugueses,  quando Portugal era um grande protagonista na marinha mercante internacional. Havana já teve, também,uma das maiores indústrias navais do mundo.

Cuba sempre impulsionou a integração

O tirocínio do marinheiro negro Jorge Luis é perfeito. Depois de suportar décadas de um bloqueio que impediu aos cubanos a compra de uma simples aspirina no maior e mais próximo mercado do mundo, os EUA, a Revolução Cubana, tendo resistido a ventos e tempestades, sobretudo às agressões imperialistas, soube preparar-se para esta nova etapa da história, simbolizada pela existência de uma Celac que vai se consolidando, pouco a pouco. Não sem enfrentar ações desestabilizadoras, lançadas contra os países mais empenhados na integração regional latino-americana, como Venezuela, Bolívia, Equador, e, também, pelas evidentes ações hostis contra Brasil e Argentina. Cuba, mesmo agredida,investiu parte de seus modestos recursos na solidariedade internacional. Seja no envio de 400 mil homens e mulheres para derrotar o exército racista da África do Sul que havia invadido Angola, como também para promover , em vários quadrantes, com o envio de professores, métodos pedagógicos, médicos e vacinas, a eliminação do analfabetismo e o salvamento generalizado de vidas. É o caso, por exemplo,do programa Mais Médicos, não por acaso tão injustamente desprezado pela oligarquia midiática, que vocaliza os laboratórios farmacêuticos multinacionais.  Como defender que salvar vidas merece desprezo?

É certo que todas as economias caribenhas e latino-americanas serão dinamizadas com a entrada em funcionamento do Porto de Mariel, gerando mais empregos, possibilitando novas opções comerciais. É emblemático que China esteja firmando um acordo estratégico de cooperação com a Celac. Para uma economia cercada de restrições, sem capacidade de investimentos,  sem engenharia nacional para fazer esta obra por conta própria,  o Porto de Mariel, é um imenso  descortinar de possibilidades para Cuba. Os gigantescos navios chineses, de uma China que consolida sua posição como a segunda potência comercial mundial, não podiam mais aportar no velho Porto de Havana, o que resultava numa limitação operacional e logística, com impactos econômicos negativos de grande monta. O Porto de Havana será readaptado para o turismo e a economia cubana, no seu conjunto, recebe, com Mariel um enorme impulso para a dinamização de suas forças produtivas. A atendente do hotel onde estou instalado me confessava hoje o interesse de ir trabalhar em Mariel, porque, segundo disse, o futuro está por ali e são empregos mais promissores.

Mariel e seus impactos internacionais

Realmente,para um economia que perdeu a parceria que tinha com a União Soviética, que resistiu durante o período especial com as adaptações inevitáveis  para salvar o essencial das conquistas da Revolução,  o que Mariel significará é de extraordinária relevância. E é exatamente na dinamização das forças produtivas da Revolução Cubana que se localizam as chaves para muitas portas que podem ser abertas para uma maior dedicação de meios , recursos e iniciativas visando a integração latino-americana. E, neste quebra-cabeças, a política estratégica implantada por Lula, continuada por Dilma  é ,inequivocamente, muito decisiva. Que outro país poderia fazer um financiamento deste porte para a construção de Mariel?

Por último, pode ser muito útil uma reflexão sobre os diversos pensadores ,formuladores e também executores de políticas de integração. Desde Marti, aquele analisou a importância da “nossa Grécia”, numa referência ao significado da civilização Inca, mas que também  formulou o conceito de Nuestra América,  até chegando ao pensamento de Getúlio Vargas, criador do BNDES, o banco estatal de fomento que está financiando a construção do Porto de Mariel, uma estupenda ferramenta integradora. Tudo converge para a abertura de uma nova avenida a dar trânsito à integração. Seja pela sabedoria dos povos da região que estão apoiando, com o seu voto,  os governos que mais impulsionam estas políticas; seja pelos avanços concretos que estas políticas integradoras têm registrados, apesar da insistência, nada profissional, do jornalismo de desintegração em reduzir tudo a zero.

Futuro socialista

A força e a necessidade histórica das ideias se vêem comprovadas nesta inauguração da primeira etapa do Porto de Mariel, em plena reunião da Celac, sem a presença de Estados Unidos e Canadá, patrocinadores históricos da desintegração entre os povos. A simbologia da justeza histórica do pensamento martiniano, nos permite afirmar, também, que José Marti é também um dos autores intelectuais de Mariel. E,retomando o otimismo realista do marinheiro Jorge Luis, constatamos que  a dinamização das forças produtivas da Revolução Cubana, que a parceria entre Cuba e Brasil possibilita, foi estampada na frase final do discurso do presidente cubano, General  Raul Castro: “Mariel e a poderosa infraestrutura que o acompanha são uma mostra concreta do otimismo e  da confiança  com que os cubamos  olham o futuro socialista e próspero da Pátria”. O marinheiro negro captou o significado essencial destes dias. Não por acaso, a Marcha das Tochas, que celebra com chamas que não se apagam, as ideias de Marti, em seu aniversário, ontem-     com mais de 500 mil manifestantes, maioria esmagadora de jovens-     teve, na  primeira fila, além de Raul, os presidentes Evo Morales, Nicolás Maduro, Pepe Mujica,  Daniel Ortega. As ideias de Marti, materializadas nestes avanços produtivos e integradores, como Mariel, vão iluminando o futuro socialista de Cuba e, com isto, da integração latino-americana.

Beto Almeida, de Havana

Membro do Diretorio da Telesur

Política e ideologia na China contemporânea

Gruas e guindastes representam mais a China de hoje do que a foice e o martelo. São esses os grandes símbolos nacionais na atualidade.


China bandeiraPor Vinius Wu *

A política chinesa é um dos maiores enigmas do mundo contemporâneo. A vitalidade e a estabilidade do regime comunista, duas décadas após a falência de seus congêneres do Leste Europeu, seguem intrigando analistas e observadores de diferentes países e vertentes ideológicas. As questões levantadas a seguir pretendem refletir sobre a estrutura política que, afinal, dará suporte àquela que será, em breve, a maior economia do planeta.

Especular sobre o presente e o futuro da nação de 1,3 bilhões de seres humanos é algo tão tentador quanto necessário – ao menos para aqueles que se preocupam com a compreensão do mundo no qual vivemos. Mas, de antemão, é preciso reconhecer que se trata de um terreno arriscado, afinal, a desinformação a respeito da realidade chinesa segue contribuindo para a reprodução de uma série de estereótipos em torno de diagnósticos pouco precisos no Ocidente. Além disso, a experiência nos ensina que análises a respeito da estabilidade de um determinado regime político devem ser cautelosas e pacientes. A história costuma ser bastante irônica com avaliações marcadas por assertivas definitivas e certezas irrevogáveis.

Consideradas essas premissas, é possível iniciar nosso raciocínio a partir da constatação de que o discurso de legitimação do regime transitou, nos últimos anos, do comunismo ao nacionalismo, perfazendo um caminho, aparentemente, sem volta. O partido comunista da China esforça-se, cada vez mais, em ser o partido “da” China.

A mobilização do orgulho chinês está diretamente relacionada à outra fonte fundamental de legitimação do regime que é a euforia diante do êxito econômico da China nas últimas décadas.

De tudo aquilo que se pode observar na China contemporânea, talvez nada parecerá tão óbvio quanto o fato do crescimento e da prosperidade terem se tornado dois dos pilares fundamentais da manutenção da hegemonia do Partido Comunista. Os dirigentes do partido sabem o quanto a satisfação das necessidades materiais dos chineses está diretamente relacionada à estabilidade política do país e, sob esse aspecto, o sistema tem sido extremamente eficiente.

Crescer, enriquecer e ir além do que já conquistaram – enquanto nação ou indivíduos – parece ter se tornado uma verdadeira obsessão nacional. Por toda parte, observa-se uma frenética corrida em direção ao crescimento, apoiado, principalmente, em pesados investimentos em infraestrutura, na expansão da indústria automobilística e na construção civil. Gruas e guindastes representam mais a China de hoje do que a foice e o martelo. São esses os grandes símbolos nacionais na atualidade.

Porém, os constrangimentos à manutenção do atual modelo são visíveis aos olhos do mais distraído observador que caminhe pelas imensas ruas e avenidas da nova China. A saturação das grandes cidades chinesas e o crescimento sustentado por uma matriz energética altamente dependente de carvão e petróleo fez com que alguns dos grandes conglomerados urbanos se transformassem num perturbador pesadelo ambiental.

A sensação que temos ao caminhar pelas ruas de cidades como Beijing, Wuhan ou Xangai nos remete a cenários de filmes de ficção científica da década de oitenta. Quase não se enxerga o céu e o sol nos dias de maior intensidade da poluição atmosférica, e isso pode durar semanas ou até meses. Obviamente, no entanto, que a situação encontra correspondência em diversas outras cidades do mundo, como a Cidade do México, São Paulo, dentre tantas outras. Não se trata de nenhuma exclusividade dos chineses.

De fato, a qualidade de vida nestes centros urbanos tem se deteriorado, ampliando a incidência de doenças respiratórias e outras patologias. O estresse e os transtornos de um trânsito dominado pelo automóvel individual são visíveis a qualquer hora do dia e a qualquer dia da semana, inclusive aos domingos.

Além dos problemas ambientais e urbanos, a nova China também expõe, de forma dramática, as profundas contradições originárias de seus novos padrões de acumulação. A desigualdade social e a concentração de renda são reforçadas – e amplificadas – por uma nova elite exibicionista e hedonista, que começa a constranger o próprio regime com suas extravagâncias.

E, apesar de toda a expansão econômica dos últimos anos, o regime chinês não tem sido capaz de impedir nem mesmo que a miséria chegue às portas da grande praça Tiannamen, no coração de Beinjing. Moradores de rua abrigam-se, durante a noite, nos mesmos corredores que nos levam aos portões da Cidade Proibida, onde o imponente retrato de Mao Zedong parece ser a única herança de um passado marcado pelo culto à personalidade do grande arquiteto da Revolução Chinesa. Há de se reconhecer, porém, que a miséria em Beijing é bem menor do que em outras grandes cidades do mundo ocidental.

Os desafios da China parecem tão grandiosos quanto sua história, sua cultura e seu povo. Ao contrário do que se poderia supor em uma avaliação mais superficial, a elite política do regime parece bem consciente da complexidade de seus problemas e da necessidade de agir de forma contundente. É neste ponto que reside uma das maiores fragilidades de boa parte das análises ocidentais sobre a China que, além de transportarem mecanicamente conceitos completamente estranhos a uma civilização milenar, costumam ser carregadas de pré-conceitos e conclusões precipitadas sobre a elite política que governa o país.

Dessa forma, cumpre ocuparmos algumas linhas para assinalar nossa impressão de que a China possui um regime autoritário e não uma ditadura e que, além disso, os dirigentes do Partido Comunista têm demonstrado uma enorme capacidade em absorver as aspirações de sua complexa sociedade, o que, em grande medida, explica a permanência do regime. Os quadros políticos do PC Chinês debatem e falam abertamente sobre os problemas do país. Isso não ocorre numa ditadura, o que a China, de fato, não é. Esse é um dos elementos a explicar a manutenção do regime de partido único comunista da China.

O regime de Beijing certamente não é uma democracia de tipo ocidental, mas também não estamos tratando de uma ditadura hermética, baseada exclusivamente na força e na coerção de sua população. Esse é um elemento fundamental à compreensão da China contemporânea. Afinal, mesmo um regime autoritário está sujeito a pressões que emergem da sociedade e se vê obrigado a formar alguns consensos em torno dos quais pode organizar sua dominação.
O Partido Comunista Chinês tem demonstrado uma enorme capacidade em se adaptar a mudanças, em absorver demandas que emergem de fora do establishment, em incorporar a seu discurso novos elementos e até mesmo novas visões de mundo. Essa característica – que é uma das grandes virtudes do regime – é sistematicamente desconsiderada por parte expressiva das análises ocidentais, que buscam apenas enquadrar a China em seus esquemas de interpretação da realidade.

Os comunistas chineses, portanto, estão debatendo e agindo sobre os mesmos temas que os ocidentais veem como ameaças potenciais ao predomínio do PCCh.
Impressiona, por exemplo, a atenção que o regime dispensa atualmente à juventude. Percebe-se não apenas novos quadros ocupando posições-chave na economia e na estrutura política do país, como também uma preocupação explícita em manter os jovens, de todos os segmentos sociais, ocupados em diversas funções. Sem muito esforço o estrangeiro poderá perceber uma grande quantidade de jovens empregados em atividades aparentemente desnecessárias em hotéis, empresas e outras atividades. Trata-se de uma estratégia política deliberada e com forte impacto social.

A imagem da burocracia estatal chinesa em nada se parece com a daquelas gerontocracias características de regimes como o da Coréia do Norte. Jovens estão presentes em posições chave na economia e na administração pública, tornando explícita a enorme capacidade do sistema político chinês em renovar-se e formar novas elites.

Outro desafio que os comunistas chineses buscam enfrentar é o de seu imenso passivo ambiental. A China já é o país que mais investe em energias renováveis no mundo e há esforços, visíveis por toda parte, que buscam mitigar os danos ambientais de indústrias e veículos automotores. O combate à corrupção se tornou um tema debatido abertamente pela sociedade chinesa. Xi Jinping tem sido, ele próprio, o líder de uma cruzada do Partido Comunista contra a corrupção de seus dirigentes, em especial, nas províncias mais afastadas.

Por fim, o regime age explicitamente para manter a coesão do país com base num processo de inclusão social que pode, perfeitamente, ser considerado o maior da história da humanidade. Estima-se que 500 milhões de chineses adentraram a sociedade de consumo nas últimas décadas e o regime pretende incluir, ainda, algo em torno de duzentos milhões de chineses. A preocupação em manter níveis de crescimento que assegurem a sequência desse processo é o grande desafio do PC Chinês nas próximas décadas.

Portanto, crescimento, orgulho nacional e prosperidade compõem o tripé da nova ideologia chinesa, através do qual o Partido Comunista busca assegurar sua legitimidade. Talvez a grande aposta dos comunistas seja a manutenção de um sistema “eficiente” do ponto de vista da satisfação das necessidades de seu povo, como forma de assegurar sua legitimidade e hegemonia.

Para promover sua grande reforma, Deng Xiaoping precisou declarar que “socialismo não é miséria” e que enriquecer era glorioso. O pragmatismo de Deng não apenas salvou a China, como também a alçou à condição de potência economia mundial. Os atuais dirigentes chineses foram formados na mesma escola pragmática. E os resultados obtidos trinta anos após a ascensão de Deng nos levam imaginar o lugar que o Império do Meio ocupará nos próximos trinta. A única certeza é a de que nem o mundo, nem a China serão mais os mesmos.

(*) Secretário-Geral do governo do Rio Grande do Sul, coordenador do Gabinete Digital.

Os ‘blacksurdos’ de todo lugar: sintomas do nosso tempo

Há dois complexos esquizos que polarizam a vida cultural brasileira.
De um lado, temos o “complexo de galinheiro”, ou seja, no grande e exótico zoológico mundial, onde pontificam as feras extraordinárias, águias imperialistas, leões colonialistas, ursos alpinos e albinos, tigres asiáticos, touros ibéricos, unicórnios gauleses, impérios do sol nascente, gigantes comunistas convertidos à azia capitalista etc., nós, brasileiros, seríamos um “puxadinho” onde habitam galinhas poedeiras e galinhos garnizés. Este é mantido pela mídia conservadora.
Do outro, o “complexo de império”: somos autossuficientes, nos explicamos por nós mesmos, as tendências internacionais se afogam no Atlântico, somos uma autogestão de tendências políticas. Mais lacônico, mas não menos complexo do que o outro. Este também é mantido pela velha mídia. E por vezes pela alternativa também.
O Brasil não foge às tendências mundiais. Pode segui-las retardariamente, ao compasso, ou pode até antecipá-las. Mas segue plugado, desde sempre, no capitalismo internacional de onde não arredará um passo. Pelas próximas décadas, pelo menos.

Vejam o caso agora dos “Black Blocs”, que ganharam fotos, vídeos e manchetes, inclusive na cena internacional. A tendência até que custou a chegar ao Brasil. Ou nele florescer. Mas chegou.

Visitando as manchetes e o noticiário, vê-se que a tendência de sua aparição é a de diluir as causas imediatas que levam às manifestações que eles passam a frequentar. Por exemplo, veja-se o caso da última terça-feira, 15 de outubro, no Rio e em São Paulo. O motivo das manifestações era a insatisfação dos professores, a  greve no Rio de Janeiro, a situação secularmente precária da educação no Brasil.
Pois bem, diante da intervenção dos Black Bocs e de suas depredações, com enfrentamentos com a polícia, tudo se dissolve, numa “insatisfação da classe média”, “ninguém nos representa”, rótulos que (des)qualificam o que seria um “inevitável peso do ser” brasileiro.
Bobagens, para não dizer mentiras ou acobertações. Mas assim é.
Os Black Bocs imitam o cenário internacional – curiosamente, mais alemão do que outros. Claro: há constantes cenas de depredação em Paris, Londres etc. Mas vêm da periferia, dos imigrantes muitas vezes. Só numa noite, nas vizinhanças do 14 de Julho em Paris, 300 carros foram incendiados. Em Londres, recentemente, houve protestos de jovens durante dias (noites, aliás), com enfrentamentos dramáticos com a polícia.
Mas aqui em Berlim há o estilo, marcadamente semelhante e copiado pelos Black Bocs brazucas: vestimentas pretas, capuzes, máscaras, enfrentamentos programados via internet. Aqui, presentes há décadas,  eles se autointitulam “Autonomen”.
Apresentam-se e são apresentados como transposições históricas de um movimento italiano – o “Autonomia Operaria”, dos anos 68/69. Também se chamaram e foram chamados de “Spontibewegung”,(Espontimovimento, numa tradução livre).
Vão às manifestações para roubar-lhes a cena. Invariavelmente, são preferenciais nas manchetes do dia seguinte, esvaziando o seu conteúdo político. São fascistóides nos métodos e nos comportamentos, apesar do verniz de esquerda. Tenho certeza: daqui a dez, 20 anos, a maioria esmagadora estará atrás de uma escrivaninha, bombeiros de ocasião, mas arrotando suas lembranças dos tempos de incendiários juvenis.
Aqui na Alemanha, como tudo é mais organizado, já há um protocolo. Eles se reúnem depois da manifestação principal (parece que a turma do Rio tentou imitar esta disposição, mas um grupo se antecipou a tudo, quando do protesto dos professores), saem em passeata, e o seu roteiro parece combinado com a polícia, que os espera de antemão num ponto estratégico, favorável ao ataque em massa dos soldados e à dispersão dos manifestantes em pequenos grupos que partem para a depredação de postos de gasolina, agências de banco, lojas, carros etc.
Como aí no Brasil, são jovens predominantemente de classe média, que se apresentam como anticapitalistas, antissistema, antitudo. Há diferenças: como as viagens aqui são baratas, nas grandes ocasiões, como o 1º de Maio ou alguma reunião do G-8, eles vêm de toda a Europa.
Parece que para eles a grande ocasião vai ser a Copa do Mundo no ano que vem. Preparem-se, apertem os cintos. Porque se a atenção da mídia internacional é seu objetivo, eles a terão. Há um frenesi em toda a mídia para “desconstruir” o Brasil, o que significa impedir a sua construção.
Já que o Brasil é uma alternativa à descalibrada pseudo-administração da crise mundial, que está levando a Europa à falência e os Estados Unidos ao desfalecimento, então que se desconstrua o Brasil, em nome de manter os pressupostos neoliberais que não funcionam em recanto algum do mundo.
E preparem-se sobretudo porque, nesta reedição do filme de Nicholas Ray, Juventude Transviada (no original, Rebels Without a Cause, com James Dean), os jovens de preto, onde eles aparecerem, terão vindo para ficar.
O Brasil não foge às tendências mundiais.

Os heróis gaúchos que combateram as trevas da ditadura militar

Se foi no dia 31 de março ou no dia 1º de abril, pouco importa. A Ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 , persegiu, demitiu, torturou e matou muita gente. E mesmo a gente falando assim, tem gente que lembra de heróis combantentes que foram assassinados. Mas há heróis que combateram a ditadura e ainda estão vivos. E muitas vezes moram perto da casa da gente. Em Porto Alegre tem muitos destes. O Juremir fala de alguns neste texto. Mas fala também de resgatar a história. Resgatar a história para que nossos filhos e nossos saibam o quanto custaram para o Brasil os 21 anos de trevas que vivemos. Mas servee também para lembrar que heróis combateram as trevas. Reproduzo aqui no Blog o texto do Juremir, em homenagem aqueles heróis, muitos até amigos da gente, e que por conviver, a gente esquece o combate que travaram. A luta é permanente pela democracia e pelo socialismo. E por permanente, tem que resgatar permanentemente a memória dos tempos em que brasileiros combateram para derrotar as trevas. Vai o texto do Juremir, publicado no ano passado no Correio do Povo.

Luiz Müller

<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Na Ilha do Presídio

Domingo de sol, manhã perfumada, Porto Alegre outonal. Lá fomos nós, de catamarã, sob o comando de Jair Krischke, com a participação do prefeito José Fortunati, acompanhados por convidados do Uruguai, do Chile e da Bolívia, visitar a Ilha das Pedras Brancas, mais conhecida como Ilha do Presídio, onde nossa gentil ditadura manteve em condições insalubres dezenas de presos políticos e outros tantos presos comuns. Tudo isso num espaço de míseros 100 metros de comprimento por 60 de largura. Ali, no século XIX, existiu um depósito de munição. Éramos 80 pessoas no passeio, entre os quais Christopher, neto de João Goulart, e Ivan Marx, procurador da República que ingressou com representação pedindo a investigação da morte de Jango na Argentina.

Jair Krischke quer o tombamento da ilha. A antiga prisão está em ruínas. As guaritas, porém, permanecem de sentinela, elevações de um tempo melancólico. Visitamos o local na companhia de três homens muitos especiais: Raul Pont, Índio Vargas e Paulo de Tarso Carneiro. Os três estiveram presos na ilha. Raul mostrou-nos a cela onde passou mais de um ano, a peça que servia de biblioteca, com livros proibidos levados por familiares com capas de obras inofensivas, e o espaço dos banheiros, que, pelas dimensões, só podiam ser lamentáveis. Índio relembrou com humor seu medo de morrer no lugar, ele, então um desconhecido, sonhando em ser incluído na lista dos presos trocados por algum embaixador. Paulo de Tarso resumiu o drama dele e dos seus companheiros. Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por problemas de saúde, não foi. Pont lembrou-se dos domingos em que a jovem Dilma ia à ilha visitar o seu Carlinhos.

Fiquei pensando nos presidiários, reunidos em cima daquela minúscula ilha, tomando sol, vendo Porto Alegre e Guaíba tão próximas, como se fossem os pinguins que se aglomeram em ilhotas na Patagônia. A nossa amável ditadura produziu os seus crimes horrendos sem a menor cerimônia. Em 24 de agosto de 1966, o sargento Manuel Raimundo Soares, um dos hóspedes involuntários do presídio, apareceu morto boiando no Jacuí, com as mãos amarradas, depois de torturado no “Dopinha”, na rua Santo Antônio, 600. Uma maneira, sem dúvida, patriótica de matar. Índio Vargas, com seu jeito manso, sintetizou: “O inferno foi aqui”. Todos esses resistentes foram punidos. A acusação contra Pont, numa ditadura que se pretendia democrática (uau!), com pluralismo na Constituição, falava em “tentativa de organização de partido proibido”.

Se eu fosse secretário de Educação, o que jamais serei, pois ninguém seria louco de me oferecer tal cargo, nem eu de aceitar, daria um jeito de que nossos estudantes tivessem aulas sobre a república castilhista na Capela Positiva, ali, na João Pessoa, e sobre o regime militar na Ilha do Presídio. Questão de memória e verdade. Foi a minha primeira vez na ilha. Fiquei impressionado com o cenário. Senti até uns calafrios. Olhei disfarçadamente para Índio, Raul e Paulo de Tarso. Por fim, numa reverência, exclamei para mim: três heróis!

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

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