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Os heróis gaúchos que combateram as trevas da ditadura militar

Se foi no dia 31 de março ou no dia 1º de abril, pouco importa. A Ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 , persegiu, demitiu, torturou e matou muita gente. E mesmo a gente falando assim, tem gente que lembra de heróis combantentes que foram assassinados. Mas há heróis que combateram a ditadura e ainda estão vivos. E muitas vezes moram perto da casa da gente. Em Porto Alegre tem muitos destes. O Juremir fala de alguns neste texto. Mas fala também de resgatar a história. Resgatar a história para que nossos filhos e nossos saibam o quanto custaram para o Brasil os 21 anos de trevas que vivemos. Mas servee também para lembrar que heróis combateram as trevas. Reproduzo aqui no Blog o texto do Juremir, em homenagem aqueles heróis, muitos até amigos da gente, e que por conviver, a gente esquece o combate que travaram. A luta é permanente pela democracia e pelo socialismo. E por permanente, tem que resgatar permanentemente a memória dos tempos em que brasileiros combateram para derrotar as trevas. Vai o texto do Juremir, publicado no ano passado no Correio do Povo.

Luiz Müller

<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Na Ilha do Presídio

Domingo de sol, manhã perfumada, Porto Alegre outonal. Lá fomos nós, de catamarã, sob o comando de Jair Krischke, com a participação do prefeito José Fortunati, acompanhados por convidados do Uruguai, do Chile e da Bolívia, visitar a Ilha das Pedras Brancas, mais conhecida como Ilha do Presídio, onde nossa gentil ditadura manteve em condições insalubres dezenas de presos políticos e outros tantos presos comuns. Tudo isso num espaço de míseros 100 metros de comprimento por 60 de largura. Ali, no século XIX, existiu um depósito de munição. Éramos 80 pessoas no passeio, entre os quais Christopher, neto de João Goulart, e Ivan Marx, procurador da República que ingressou com representação pedindo a investigação da morte de Jango na Argentina.

Jair Krischke quer o tombamento da ilha. A antiga prisão está em ruínas. As guaritas, porém, permanecem de sentinela, elevações de um tempo melancólico. Visitamos o local na companhia de três homens muitos especiais: Raul Pont, Índio Vargas e Paulo de Tarso Carneiro. Os três estiveram presos na ilha. Raul mostrou-nos a cela onde passou mais de um ano, a peça que servia de biblioteca, com livros proibidos levados por familiares com capas de obras inofensivas, e o espaço dos banheiros, que, pelas dimensões, só podiam ser lamentáveis. Índio relembrou com humor seu medo de morrer no lugar, ele, então um desconhecido, sonhando em ser incluído na lista dos presos trocados por algum embaixador. Paulo de Tarso resumiu o drama dele e dos seus companheiros. Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por problemas de saúde, não foi. Pont lembrou-se dos domingos em que a jovem Dilma ia à ilha visitar o seu Carlinhos.

Fiquei pensando nos presidiários, reunidos em cima daquela minúscula ilha, tomando sol, vendo Porto Alegre e Guaíba tão próximas, como se fossem os pinguins que se aglomeram em ilhotas na Patagônia. A nossa amável ditadura produziu os seus crimes horrendos sem a menor cerimônia. Em 24 de agosto de 1966, o sargento Manuel Raimundo Soares, um dos hóspedes involuntários do presídio, apareceu morto boiando no Jacuí, com as mãos amarradas, depois de torturado no “Dopinha”, na rua Santo Antônio, 600. Uma maneira, sem dúvida, patriótica de matar. Índio Vargas, com seu jeito manso, sintetizou: “O inferno foi aqui”. Todos esses resistentes foram punidos. A acusação contra Pont, numa ditadura que se pretendia democrática (uau!), com pluralismo na Constituição, falava em “tentativa de organização de partido proibido”.

Se eu fosse secretário de Educação, o que jamais serei, pois ninguém seria louco de me oferecer tal cargo, nem eu de aceitar, daria um jeito de que nossos estudantes tivessem aulas sobre a república castilhista na Capela Positiva, ali, na João Pessoa, e sobre o regime militar na Ilha do Presídio. Questão de memória e verdade. Foi a minha primeira vez na ilha. Fiquei impressionado com o cenário. Senti até uns calafrios. Olhei disfarçadamente para Índio, Raul e Paulo de Tarso. Por fim, numa reverência, exclamei para mim: três heróis!

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

Pescado do Correio do Povo

Convocatória do 5º Congresso Nacional do PT (A história na mão)

Por seu conteúdo, publico o parágrafo de conclusão da Convocatória do Diretorio Nacional do PT  para o 5} Congresso Nacional. O conteúdo na íntegra está no Link logo abaixo do texto.

CONVOCATÓRIA DO 5º. CONPT

grauna…Conclusão
A dissolução da União Soviética e do chamado “campo socialista”, a deriva da Socialdemocracia, os rumos seguidos pela República Popular da China, para só citar alguns fenômenos maiores das últimas décadas, lançaram uma profunda incerteza sobre o ideário socialista. Nascido nos anos em que essa crise começou a se fazer mais evidente e herdeiro de tradições democráticas e libertárias, o PT resistiu aos descaminhos desses projetos socialistas, não sendo constrangido pela aparentemente irresistível ascensão do neoliberalismo ou pelo proclamado “fim da História”. Ao contrário, fizemos a História andar em nosso país. Mas, ainda que tenhamos dado respostas práticas e alternativas aos desafios do presente, não fomos capazes de construir nem mesmo um esboço de um novo e abrangente ideário de esquerda – socialista e democrático – que pudesse abrir perspectivas àqueles que sofrem a orfandade de uma generosa utopia, sobretudo naquelas partes do mundo onde a crise econômica e social ceifa esperanças; onde a política é substituída por arranjos tecnocráticos, que produzem desilusão e impotência. Dar, pelo menos, alguns passos para reinstaurar o socialismo como horizonte político, ajudar a reconstruir uma cultura política de esquerda, aí estão tarefas a que devemos nos dedicar em nosso Congresso.
Brasília, 8 de dezembro de 2012
Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores.

O texto na íntegra pode ser lido aqui http://www.pt.org.br/arquivos/CONVOCATORIA_5_CONGRESSO_PT.pdf

Eric Hobsbawm e a História – A esquerda que pensa e elabora, está de luto!

O texto que publico abaixo é do Arnobio Rocha. Mas ao título aqui do Post acrescentei  o “A esquerda que pensa e elabora, está de luto! Por que tem uma parte significativa da esquerda que não consegue elaboar para além do seu ridiculoe doentio radicalismo, aos olhos do qual, todos os adversários são iguais. Nos discursos do PSOL e do PSTU por exemplo, Lula e FHC parecem representar o mesmo projeto. “esquerdismo, a doença infantil do comunismo diria Lenin”. Já para outros, que militam nas hostes do PT, sentados nas agradáveis cadeiras do poder, a estes parece faltar a vontade de elaborar para além do “estado do bem estar social” , cuja construção ocmeçou com a eleição de Lula, mas que empaca justamente na falta de disposição do PT de avançar na elaboração, para além das disputas eleitorais, que de meros episódios táticos, parecem ter virado a estratégia da direção. Aprendí muito lendo Eric Hobsbawm. é uma perda para a esquerda, mas natural, por que as pessoas se vão. É bom que nestes momentos a gente reflita, e pressiona para que este Partido da Classe Trabalhadora, que erguemos a tão duras penas, e que é referência mundial, não sucumba aos cantos de sereia do poder da classe dominante. Por isto, se por um lado perdemos um historiador de peso, apesar dito ainda tem muita gente elaborando textos que servem para o bom debate necessário para a construção permanente da utopia e o Blog do Arnóbio Rocha faz exatamente isto, mas tendo a disposição este importante isntrumento tecnológico, que Hobsbawm e a esquerda dos séculos anteriores não tiveram.

Vai o texto do Arnóbio, pescado do Blog dele.

Hobsbawm – a história vista com rigor e classe

Começamos segunda-feira  e o primeiro dia de outubro com uma nota triste, faleceu Eric Hobsbawm, o maior intelectual marxista do século XX, historiador, conferencista e grande escritor, estava com 95 anos de idade, tendo cumprido uma longa jornada de vida com brilhantismo e reconhecimento mundial. Hobsbawm, nasceu em Alexandira, Egito, numa família de judeus, em 1917, logo se mudou para Europa, vivendo em Viena e Berlim, até se fixa em Londres.

 

Ainda muito jovem se tornou militante do Partido Comunista Britânico, em 1936, o que marcará sua opção intelectual, se torna professor e posteriormente presidente Universidade de Birkbeck. A sua influência mundial se dará no início dos anos 60 quando começou a publicar suas obras sobre história e movimentos sociais, uma visão marcadamente marxista com rigor e precisão. Seus livros passam a ter grande apelo no seio da esquerda mundial, a despeito das crises do leste e sua queda.

 

O mais marcante destes livros, foi a “Era dos Extremos”, pois traz ao debate a Revolução, desenvolvimento e a queda do “socialismo real”, um panorama completo, das lutas e vitórias dos trabalhadores, até a derrocada final, passando pelo burocratismo e a guerra. A crítica rigorosa, a escrita apaixonante, se sucede tornando o acesso mais fácil aos seus livros. Uma figura que conseguia levar centenas de pessoas aos auditórios de debates e palestras, como na FLIP de 2003, em Paraty, que foi convidado especial.

 

Numa entrevista ao jornal Pagina 12( Argentina), em janeiro de 2011, ele falou do Brasil, em especial de Lula, de sua importância histórica, que ela assim definiu com extrema precisão:(lula)”É o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles”. Depois diz mais em abril de 2011, numa reunião com Lula em Londres: “Lula ajudou a mudar o equilíbrio do mundo ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. Este olhar cirúrgico que muitas vezes falta-nos, nós que militamos à esquerda.

 

Depois da morte de Robert Kurz (Robert Kurz, Presente! ), recentemente, agora se vai Hobsbawm, a esquerda fica mais pobre intelectualmente, o vazio destes dois gigantes é difícil de ser preenchido. Neste momento que precisamos de forma urgente e desesperada de inteligência, rigor, criatividade e análises lúcidas da sociedade em ebulição com a Crise e com os novos atores no mundo, o Brasil em particular, temos estas duras baixas.

Grécia: É possível a união com radicalismo, diz fundador do Syriza

Para o jornalista e ativista grego Yorgos Mitralias, um dos fundadores da Syriza (acrônimo formado com as iniciais de Coligação de Esquerda Radical). o cenário da Grécia é o de um vulcão político-ideológico que está em plena erupção. “Há paisagens que estão sumindo enquanto outras estão surgindo”. Diante desse cenário, os cidadãos estão buscando soluções radicais para seus problemas imediatos, ou seja, para sobreviver. Pesquisas recentes dão 31% das inteções de voto para a Syryza.

Pescado do Carta Maior

Maurício Hashizume, direto de Coimbra

Coimbra – Em menos de duas semanas, a população grega dará um importante sinal que certamente ecoará dentro e fora do país. Embora o resultado das próximas eleições legislativas na Grécia, marcadas para 17 de junho, permaneça ainda bastante incerto, as pesquisas mais recentes têm mostrado vantagem do emergente partido de esquerda radical Syriza, com algo em torno de 31% de preferência do eleitorado, seguido pela tradicional agremiação (de centro-direita) Nova Democracia, com cerca de 25%. Em baixa, os socialistas do Pasok – que, juntamente com a Nova Democracia, dá suporte ao programa de austeridade ditado pelos organismos financeiros internacionais e aplicado no país – não tem obtido um suporte maior que 14% nas últimas sondagens.

Alex Tsipras, líder do Syriza, tem enfatizado publicamente as bases do “plano de reconstrução nacional” (contrário ao memorando de “resgate” repleto de cortes (em salários, pensões, investimentos público que restringem a produção e as políticas sociais etc.) formulado pela troika – Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para além do giro de Tsipras pela Alemanha e pela França, militantes do Syriza circulam por diversos países europeus às vésperas do decisivo pleito para apresentar e discutir questões relativas ao atual contexto político-econômico com representantes de organizações, militantes e interessados, em geral.

O ativista grego Yorgos Mitralias, um dos fundadores do Syriza (acrônimo formado com as iniciais de Coligação de Esquerda Radical), esteve em Portugal e participou de encontros abertos que contaram também com intervenções do economista português Vitor Lima. Carta Maior acompanhou o debate organizado pela Assembleia Popular de Coimbra, no último final de semana.

Jornalista aposentado e membro do Comitê Grego contra a Dívida, Mitralias fez comentários sobre a situação dramática pela qual passa o seu país e detalhou as características, propostas e dilemas do Syriza, com ênfase na dura batalha que a esquerda radical tem enfrentado nesta reta final de processo eleitoral. Tratou também da intensa polêmica em torno da saída ou não da Grécia da União Europeia (UE), bem como de temas correlatos como o corte dos gastos militares, a nacionalização do setor financeiro e, obviamente, os rumos da dívida.

Grécia
Na visão do militante político do Syriza, o país vive uma situação parecida com a que viveu a Alemanha na década de 1930, entre a I e a II Guerra Mundial. A classe média, muito importante para a Grécia, está, nas suas palavras, “sendo destruída”. Os índices de desemprego são altíssimos (por volta de 35%, em termos gerais) e superiores a 50% entre os jovens. “Daqueles que ainda têm trabalho, cerca de 500 mil simplesmente deixaram de receber salários”, acusa Mitralias. Segundo ele, o sistema sindical de convenções coletivas está em frangalhos e os acordos pessoais se multiplicam. Há sinais de desnutrição e a fome se alastra nos principais centros urbanos. “O país já está em ruínas”.

Diante desse cenário, os cidadãos buscam soluções radicais para seus problemas imediatos, ou seja, para sobreviver. Daí a tendência de investimento nos extremos do espectro político (tanto à esquerda como à direita), coloca o filiado ao Syriza. “Como os grandes partidos sociais democratas (seja mais de centro-direita, no caso da Nova Democracia, ou de centro-esquerda, como é o Pazok) não dão respostas, as pessoas estão procurando outros”, resume.

Além da ascensão do Syriza, o militante ressalta que o partido neonazista Aurora Dourada também vem experimentando um acréscimo de apoios. Bandos têm recentemente promovido violentos ataques contra imigrantes. “Tudo é possível. Para o bem ou para o mal”, adverte. A sensação, descreve, é a de que um vulcão político-ideológico está em plena erupção. “Há ‘paisagens’ que estão sumindo enquanto outras estão surgindo”.

Eleições
Desde a queda da ditadura militar, em 1974, a Grécia era tida como um dos países politicamente mais estáveis da Europa. Juntos, a Nova Democracia e o Pazok somavam tranqüila e repetidamente uma soma de 85% dos votos. Há apenas três anos, o Pazok chegou a obter a vitória histórica de 45% da preferência nas eleições parlamentares.

Ainda em 2009, o Syriza teve apenas 4,5%. Na última disputa, realizadas no início de maio, quadruplicou a proporção para 17% do eleitorado, garantindo 52 do 300 postos do Parlamento grego. “Nossa projeção é que possamos alcançar 35% em 17 de junho“, arrisca Mitralias. Dado o peso do resultado das urnas, ele frisa que as ameaças e chantagens que visam enfraquecer a esquerda radical têm se intensificado. “Dizem a todo o momento para que os gregos votem ‘corretamente’ [contra o Syriza]. Mas as pesquisas estão mostrando que a população está disposta a votar de forma ‘errada’”. ironiza.

“Não há certezas, mas é possível que nós da esquerda radical sejamos vencedores”, projeta. As sondagens revelam uma forte adesão dos adultos (na faixa dos 25 anos a 45 anos) nas dez maiores cidades da Grécia. “Creio que conseguimos captar os anseios e dar voz à população”, diz o militante, fazendo referência à perspectiva concreta e de curto prazo para lidar com os problemas. “Mas trata-se de uma guerra. Todos os meios estão sendo utilizados [contra nós e o nosso programa]. Não podemos ser inocentes”.

O Syriza, na descrição de Mitralias, é um caso particular de “casamento” entre partidos políticos distintos e entidades da sociedade civil. Fundado há nove anos, o partido reúne ao todo 12 organizações, desde uma ala reformista de esquerda e segmentos trostkistas até grupos autônomos e de defesa de direitos como o das mulheres. Nas raízes do partido, estão inclusive articulações em torno do processo do Fórum Social Mundial. “A primeira lição é a de que é possível a união com radicalismo. Esta formação não foi sempre harmoniosa. Houve crises e muitas outras ainda virão. Há, por exemplo, algumas questões transversais que atravessam horizontalmente toda a organização, que é uma grande mescla”.

União Europeia
Para Mitralias, o dilema não é necessariamente “permanecer ou não na União Europeia (UE)”, como o mercado financeiro e outras forças políticas têm colocado, mas enfrentar o cenário de crise “com ou sem austeridade”. O grande terror alardeado por porta-vozes do poder é a de que a Grécia seja “expulsa” da UE em caso de vitória do Syriza. “Se isso vier a acontecer, haverá uma ampla reação em toda a Europa”, assinala o ativista.

A ação arbitrária de exclusão, que não está prevista nas normas do bloco, facilitaria a constituição do que ele considera ser o principal meio para enfrentar definitivamente o receituário da austeridade: um movimento de massa transfronteiriço de aliança entre organizações de base europeias com bases locais e de longo prazo. Tal proposta se combinaria com a convocação, nos próximos anos, de uma nova Assembleia Constitutiva da UE. “Alguém pode achar que eu estou falando está mais para ficção científica. Mas o que era improvável se tornou mais do que possível. Devemos estar preparados e temos de procurar dar respostas à altura [dos desafios impostos pela crise]”.

“Sair do euro seria voltar para o Estado-nação”, adiciona o militante do Syriza, que se opõe ao isolamento que enquadra a questão como “problema interno”, afastando a possibilidade de saídas conjuntas em nível continental. “Seria abandonar os companheiros dos outros países do bloco e dizer não ao movimento solidário europeu”.

Na perspectiva dele, “não é o euro que é necessariamente ruim, mas justamente a total ausência de solidariedade [por parte de quem está à frente da iniciativa transnacional]”. Mitralias realça, por exemplo, que nove estados dos EUA têm uma situação fiscal pior que a da Grécia, mas o Banco Central norte-americano atua como as estruturas financeiras europeias deveriam fazer, assegurando condições para que os mesmos sigam seus caminhos.

A “ausência de solidariedade”, complementa o ativista, ainda vem combinada com a manutenção de parte do orçamento público que favorece a indústria bélica de países como a Alemanha, a França e os EUA. “Como é sabido, a Grécia é um dos melhores clientes mundiais em termos de gastos militares. Denúncias recentes vêm mostrando indícios de corrupções milionárias envolvendo o setor. Pretendemos cortar isso drasticamente”.

O próprio Mitralias admite, porém, que o partido ainda não fechou posição definitiva acerca de algumas questões relevantes. A nacionalização dos bancos, por exemplo, com o intuito de fazer o dinheiro chegar até as pessoas para que a economia passe a funcionar, ainda permanece em aberto. A própria questão da dívida não está completamente decidida: sinalizações de possíveis renegociações sob determinadas condições se misturam com posturas que defendem a suspensão, o repúdio e a auditoria. “É impossível pagar. Para isso, teremos de optar por uma recessão monstruosa, durante anos e anos”, sustenta o militante, que critica os “moderados” instalados dentro do Syriza que preferem acordos com a banca. Os desígnios das urnas podem fazer com que essa e outras batalhas “internas” ganhem ampla repercussão não só para a Grécia como para o conjunto da União Europeia (UE).

Os heróis gaúchos que combateram as trevas da ditadura militar

Se foi no dia 31 de março ou no dia 1º de abril, pouco importa. A Ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 , persegiu, demitiu, torturou e matou muita gente. E mesmo a gente falando assim, tem gente que lembra de heróis combantentes que foram assassinados. Mas há heróis que combateram a ditadura e ainda estão vivos. E muitas vezes moram perto da casa da gente. Em Porto Alegre tem muitos destes. O Juremir fala de alguns neste texto. Mas fala também de resgatar a história. Resgatar a história para que nossos filhos e nossos saibam o quanto custaram para o Brasil os 21 anos de trevas que vivemos. Mas servee também para lembrar que heróis combateram as trevas. Reproduzo aqui no Blog o texto do Juremir, em homenagem aqueles heróis, muitos até amigos da gente, e que por conviver, a gente esquece o combate que travaram. A luta é permanente pela democracia e pelo socialismo. E por permanente, tem que resgatar permanentemente a memória dos tempos em que brasileiros combateram para derrotar as trevas. Vai o texto do Juremir, publicado ontem no Correio do Povo.

Luiz Müller

<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Na Ilha do Presídio

Domingo de sol, manhã perfumada, Porto Alegre outonal. Lá fomos nós, de catamarã, sob o comando de Jair Krischke, com a participação do prefeito José Fortunati, acompanhados por convidados do Uruguai, do Chile e da Bolívia, visitar a Ilha das Pedras Brancas, mais conhecida como Ilha do Presídio, onde nossa gentil ditadura manteve em condições insalubres dezenas de presos políticos e outros tantos presos comuns. Tudo isso num espaço de míseros 100 metros de comprimento por 60 de largura. Ali, no século XIX, existiu um depósito de munição. Éramos 80 pessoas no passeio, entre os quais Christopher, neto de João Goulart, e Ivan Marx, procurador da República que ingressou com representação pedindo a investigação da morte de Jango na Argentina.

Jair Krischke quer o tombamento da ilha. A antiga prisão está em ruínas. As guaritas, porém, permanecem de sentinela, elevações de um tempo melancólico. Visitamos o local na companhia de três homens muitos especiais: Raul Pont, Índio Vargas e Paulo de Tarso Carneiro. Os três estiveram presos na ilha. Raul mostrou-nos a cela onde passou mais de um ano, a peça que servia de biblioteca, com livros proibidos levados por familiares com capas de obras inofensivas, e o espaço dos banheiros, que, pelas dimensões, só podiam ser lamentáveis. Índio relembrou com humor seu medo de morrer no lugar, ele, então um desconhecido, sonhando em ser incluído na lista dos presos trocados por algum embaixador. Paulo de Tarso resumiu o drama dele e dos seus companheiros. Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por problemas de saúde, não foi. Pont lembrou-se dos domingos em que a jovem Dilma ia à ilha visitar o seu Carlinhos.

Fiquei pensando nos presidiários, reunidos em cima daquela minúscula ilha, tomando sol, vendo Porto Alegre e Guaíba tão próximas, como se fossem os pinguins que se aglomeram em ilhotas na Patagônia. A nossa amável ditadura produziu os seus crimes horrendos sem a menor cerimônia. Em 24 de agosto de 1966, o sargento Manuel Raimundo Soares, um dos hóspedes involuntários do presídio, apareceu morto boiando no Jacuí, com as mãos amarradas, depois de torturado no “Dopinha”, na rua Santo Antônio, 600. Uma maneira, sem dúvida, patriótica de matar. Índio Vargas, com seu jeito manso, sintetizou: “O inferno foi aqui”. Todos esses resistentes foram punidos. A acusação contra Pont, numa ditadura que se pretendia democrática (uau!), com pluralismo na Constituição, falava em “tentativa de organização de partido proibido”.

Se eu fosse secretário de Educação, o que jamais serei, pois ninguém seria louco de me oferecer tal cargo, nem eu de aceitar, daria um jeito de que nossos estudantes tivessem aulas sobre a república castilhista na Capela Positiva, ali, na João Pessoa, e sobre o regime militar na Ilha do Presídio. Questão de memória e verdade. Foi a minha primeira vez na ilha. Fiquei impressionado com o cenário. Senti até uns calafrios. Olhei disfarçadamente para Índio, Raul e Paulo de Tarso. Por fim, numa reverência, exclamei para mim: três heróis!

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

Pescado do Correio do Povo

Olívio Dutra “Partido dos Trabalhadores: o partido que ajudei a fundar”

O ex-governador e presidente de Honra do PT gaúcho faz uma análise dos caminhos tomados pelo Partido dos Trabalhadores, desde sua fundação que teve como impulso a ideia de que o povo devia ser o sujeito de sua história, até a chegada de Dilma Rousseff a presidência da República.

Por Olívio Dutra Sempre fui desvinculado organicamente de estruturas políticas antes e, depois, dentro do PT. Não reivindico isso como virtude, mas não é tampouco um defeito, talvez uma limitação. Venho da vertente sindicalista que ajudou a fundar o partido.

Um balanço do PT, como partido de esquerda, socialista e democrático, tem de vê-lo como parte da luta histórica do povo brasileiro, em especial dos trabalhadores, na busca de ferramentas capazes não só de mexer mas de alterar a estrutura de poder do Estado e sociedade brasileiros marcada por privilégios baseados no enorme poder político, econômico, cultural de uma minoria. O PT nasceu para lutar por uma sociedade sem explorados e sem exploradores e radicalmente democrática.
Antes do PT, ainda no século XIX, surge o PSB, o primeiro partido de esquerda do Brasil republicano. O movimento operário anarquista das primeiras décadas do século xx era avesso à idéia de um partido. O PC surge em 1922. O PT aparece numa conjuntura de enorme agitação política reprimida por uma ditadura militar, fruto do golpe de 1964 que recompôs as elites contra um populismo que já não controlava mais as lutas sociais.
Este populismo, iniciado por Vargas e que inspira Jango e Brizola, era dirigido por gente ligada ao latifúndio “esclarecido”, um pouco na tradição dos republicanos gaúchos- Julio de Castilhos, Borges de Medeiros – que compartilhavam a idéia de que política não é para qualquer um, que o povo precisa de alguém que o cuide.
O PT nasceu com a idéia de que o povo devia ser o sujeito de sua história, o que marcou os seus primeiros passos. Mas, à medida em que conquistou mandatos em vários níveis, a coisa foi ficando“osca”, suas convicções e perspectivas foram perdendo nitidez. Houve uma acomodação na ocupação das máquinas institucionais (inclusive no Judiciário).
Diante desse processo o PT não se rediscutiu, não discutiu os efeitos dessa adaptação à institucionalidade de um Estado e de uma sociedade que, para serem democráticos, precisam ser radicalmente transformados.
Assim, o PT cresce quantitativamente – em 2011 temos três vezes mais diretórios municipais, passamos de mil a 3 mil, em função de eleições e do fato de o partido estar no governo federal e em governos estaduais, municipais, além de ter eleito centenas de parlamentares nos três níveis de representação.
E, bem mais que as idéias ou mesmo o programa, o que mobiliza o partido, ultimamente, são as eleições internas e externas. Somos todos responsáveis por isso: a política como um “toma lá, dá cá”, confundindo-se com negócios, esperteza,e a idéia de tirar proveito pessoal dos cargos públicos conquistados. E tem gente chegando no partido para isso, favorecidos pelo discurso da governabilidade mínima com o máximo de pragmatismo político.
Mesmo com os dois mandatos de Lula, demarcatórios na história de nosso país,o Estado brasileiro não foi mexido na sua essência. O 1º mandato foi de grande pragmatismo, onde a habilidade de Lula suplantou o protagonismo do Partido e garantiu, para um governo de composição, uma direção, ainda que com limites, transformadora da política. A política de partilhar espaços do Estado com aliados políticos de primeira e última hora de certa forma já vinha de experiências de governos municipais e estaduais mas ali atingiu a sua quinta essência. No 2º mandato, ao invés de o PT recuperar o protagonismo, diluiu-se mais um pouco, disputando miríades de cargos em todos os escalões da máquina pública.
Quanto à Dilma, ela é um quadro político da esquerda. Seu ingresso no PT, honroso para nós, não foi uma decisão fácil para ela, militante socialista do PDT e sua fundadora.
O PDT estava no governo da Frente Popular(PT, PDT, PSB, PC, PC do B) no RS. Veio conosco no 2º turno. No 1º turno sua candidata tinha sido a ex-senadora Emilia Fernandes. A relação do Brizola com o PT e com nosso governo nunca foi tranqüila. Tive de contornar demandas descabidas para criar secretarias para abrigar pessoas de sua indicação. Lembro o quanto lutamos pela anistia e volta dos exilados ainda durante a ditadura. Ocorre que em 1979, quando Brizola voltava do exílio, nós, os bancários de Porto Alegre – eu era presidente do sindicato da categoria – estávamos em greve. Caiu a repressão sobre nós com intervenção no sindicato e prisão de lideranças. Brizola permaneceu em São Borja no aguardo de que, com a prisão dos dirigentes, a greve acabasse. Veio até Carazinho, mas como a greve, apesar da repressão, não terminara, voltou para São Borja. A categoria tinha a expectativa que ele, pelo menos, desse uma declaração contra a repressão ao movimento. Não se manifestou.
Quando do governo da Frente Popular, em decorrência de o PT e PDT terem candidaturas opostas à Prefeitura de POA(nosso candidato, eleito, foi o Tarso Genro), Brizola, como presidente nacional do PDT, fez pressão para que trocássemos os secretários pedetistas ligados ao “trabalhismo social”: Dilma, Sereno, Pedro Ruas e Milton Zuanazzi, caso contrário o PDT deixaria o governo. Não concordamos. Eles foram mantidos nos cargos e com plena liberdade para se decidirem sobre sua vinculação partidária. Todos eles travaram uma discussão intensa nas instâncias do PDT e deliberaram desfiliarem-se e, posteriormente, após nova discussão interna, desta vez nas instâncias do PT, filiarem-se ao nosso partido. A Dilma, à época em que reabrimos a negociação sobre os subsídios, favores tributários e renúncia fiscal para a Ford, estava ainda no PDT e, como Secretária de Minas e Energia do nosso governo, participou da construção da decisão que, séria, responsável e republicanamente tomamos. Sua postura determinada nessas e em outras circunstâncias teem o nosso reconhecimento, respeito e admiração.
Ela tem clareza sobre como funciona o Estado e como deveria funcionar, sob controle público, para ser justo, desenvolvido e democrático mas, a composição do governo é um limitador e ela não vai poder alterar as estruturas arcaicas e injustas do Estado brasileiro, coisa que o próprio Lula, com toda sua historia vinculada às lutas sociais da s últimas décadas, não conseguiu fazer. Para mexer nisso, tem que ser debaixo para cima!
Então aí está o papel do partido que não pode se acomodar. Nós, os petistas, nos vangloriamos de feitos em prefeituras, governos estaduais e federal. Mas, criamos mais consciência no povo para que se assuma como sujeito e não objeto da política?
Nas eleições fala-se em “obras” e não se discute a estrutura do Estado, como e quem exerce o poder na sociedade e no estado brasileiros, os impostos regressivos para os ricos e progressivos para os pobres, as isenções, os favores tributários, a enorme renúncia fiscal. Tem prefeitura do PT que privatiza a água, aceitando o jogo do capital privado e a redução do papel do estado numa questão estratégica como essa.
O PT não se esgotou no seu projeto estratégico,mas corre o risco de se tornar mais um partido no jogo de cena em que as elites decidem o quinhão dos de baixo preservando os privilégios dos de cima. Nosso partido tem de desbloquear a discussão de questões estruturais do estado e da sociedade brasileira da disputa imediata por cargos. Essa discussão deve ser feita não apenas internamente mas com o povo brasileiro.
Realizar Seminários onde se discuta até mesmo o papel e o estatuto das correntes internas. Seminários com os lutadores sociais para discutir como um o partido com nossa origem e compromisso pode governar transformadoramente sem se apequenar no pragmatismo político.
A lógica predominante, diante das eleições do ano que vem, é de governarmos mais cidades, mas qual a cidade que queremos? A imposta pela indústria automobilística, desde os tempos de JK, com ferrovias privatizadas e sucateadas e o rodoviarismo exigindo que o espaço urbano se esgarce e se desumanize para dar espaço para o automóvel particular? Onde as multinacionais se instalam com as maiores vantagens do mundo e as cidades viram garagens para carros, onde túneis, viadutos e passarelas, cuja capacidade se esgota em menos de 10 anos, tecem teias de concreto que mais aprisionam do que libertam o ser humano?
O PT deve refletir sobre suas experiências de governar as cidades . São muitas e nenhuma definitiva. O Orçamento Participativo não foi radicalizado ao ponto de ser apropriado pela cidadania como ferramenta sua para controle não só de receitas e despesas, verbas para obras e serviços, no curto prazo,mas sobre a renda da cidade, sua geração e o papel do governo na sua emulação e correta distribuição social, cultural, espacial, econômica e política. O Orçamento Participativo tem que ser pensado não como uma justificativa para a distribuição compartilhada de poucos recursos mas como gerador de cidadania capaz de, num processo de radicalidade democrática crescente, encontrar formas de erradicar o contraste miséria/riqueza do panorama de nossas cidades.
A crise econômica mundial está longe de ser debelada e os países ricos teem enorme capacidade de “socializar” o pagamento dela com os países pobres. No chamado Estado de Direito Democrático o ato de governar é resultado de uma ação articulada e interdependente entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Ocorre que na sociedade capitalista o Poder Econômico, que não está definido na Constituição, é tão poderoso e influente quanto todos aqueles juntos. Portanto, a confusão entre governo e esse poder “invisível” privatiza o Estado e é caldo de cultura para a corrupção.
Como presidente de honra do PT-RS tenho cumprido agenda partidária, fazendo roteiros, visitando cidades, participando de atos de filiações, ouvindo as lideranças de base e discutindo o PT. Sinto-me provocado positivamente com esta tarefa.
Mas na estrutura que existe hoje o Partido é cada vez mais dependente, inclusive financeiramente, dos cargos executivos e mandatos legislativos que vem conquistando. É difícil, pois, uma guinada, sem que haja pressão debaixo para cima sobre as direções , correntes, cargos e mandatos. Assim como está o PT vai crescer “inchando”, acomodando interesses. A inquietação na base quanto à isso ainda é pequena mas é sinalizadora de que a luta para que o PT seja um partido da transformação e não da acomodação vale a pena.
(*) titulo criado a partir das afirmações do presidente de Honra do PT/RS
Pescado do Blog Aldeia Gaulesa

“A cada um de acordo com suas necessidades e de cada um de acordo com suas possibilidades” – O socialismo que reconhece as diferenças!

A um Post sobre o tema O Que é Capitalismo?, do Professor Emir Sader, que postei aqui , recebi um comentário de um leitor do Blog que se dispôs a debater o tema. O Espaço aqui é democrático, e todos os comentários, se não forem ofensivos, são reproduzidos. Mas pela atualidade do tema, decidi publicar a minha resposta e o comentário do leitor, a quem agradeço, também:

Mau caro Faust

Tu dizes que se o trabalhador tem a capacidade de “apertar um parafuso”, sim, ele ganham muito pouco. Mas segundo dizes, isto é justo, já que há milhares de trabalhadores nesta “condição” de apertador de parafusos, por que ainda, estes trabalhadores tem pouca esacolaridade por uma “opção deles”. Então tah. Vamos lá. Em uma formatura do Porgrama Próximo Passo, que tem a finalidade de formar beneficiárias e beneficiários do Bolda família para atuar na construção Civil, uma mulher, beneficiária do programa, fez seu depoimento a respeito. Ela dise que era analfabeta. E não é analfabeta funcional não. É analfabeta mesmo. Mas com o curso do SENAI, agora já sabe “sentar tijolo” como ela mesma diz. Ela esta empregada há 2 meses. Foi contratada enquanto ainda fazia o curso. O salário dela é de R$ 2.700,00. Um tecnólogo, engenheiro ou um advogado, passou de 15 a 17 anos estudando e ganha quanto? No caso dos que trabalham “planejando” obras como esta, que esta senhora ajuda a erguer, R$ 2.500,00. Acho o trabalho desta senhora lindo e fundamental para a sociedade. Se não fosse ela e os demais que trabalham como ela, nem eu nem tu teríamos sequer casa para morar. Mas  se a lógica é esta, do mercado, do dinheiro, seria melhor não estudar, pois agora os capitalistas pagam mais para ela do que para engenheiros. Do ponto de vista do mercado é justo. Do ponto de vista de quem olha o conjunto da sociedade, com certeza esta errado. Nos preceitos básicos dos pais do socialismo sempre houve uma frase basilar: “De cada um de acordo com suas possibilidades, a cada um de acordo com suas necessidades”. Esta frase, mais do que qualquer outra, simboliza o socialismo utópico da minha mente e de muitos outros. Não tem nada a ver com a União Soviética, nem China, nem Cuba, tem a ver com a cidadania universal. A igualdade não existe, mas o problema é que o capitalismo proclama, dizendo que todos tem direito de ser empreendendores da mesma forma na democracia. Não tem não. Cada um é diferente. E a difereça não é a base do individualismo capitalista burgues que exalta o empreendedorismo, mas sim o reconhecimento das diferenças. Por isto a frase “de cada um de acordo com suas possibilidaes e a cada um de acordo com as suas necessidades. Queres falar da Coréia, esta que dizes que não precisa nem de comentários? Sabes onde ficam os portadores de necessidades especiais por lá? Na África dizes que não há renda para comprar alimentos? Mas quem disse que é preciso ter renda para comprar alimentos? Não dá para produzir alimerntos? O capitalismo, este que tanto defendes, aplica recursos lá para desenvolver tecnologias que possibilitam plantar em terras desérticas? Não. Estas tecnologias estão disponíveis, mas para quem tem condições econômicas extraídas da excploração da mão de obra em outros países. Ou de onde pensa quem vem as tecnologias de irrigação em Israel? Mas Israel cede de graça esta tecnologia para o mundo? Não. Querem ganhar dinheiro com ela. E se não lhes pagam, não a liberam. Milhões morrem de AIDS na África. No entanto, os laboratórios proprietarios das fórmulas de coquetéis que minimizam ou até elidem a AIDS, não os liberam para a África, pois lá não tem dinheiro para pagar. Recentemente, depois de muitas negociações, o Brasil quebrou os “direitos de patente” dos ingredientes dos coquetéis contra a AIDS. Mas isto não foi fácil. Pois quebrando-as, outros remédios deixaram de ser fornecidos ao Brasil. Foi necessário bancar com a força da nossa economia, que produz outros produtos dos quais o mundo carece, esta possibilidade. E a África. Bom, a África produziu e produz ouro, Diamantes, petróleo e outras riquezas, que no entanto estão na mão de quem mesmo? O capitalismo do qual falas, e que eu abomino, por querer e pretender que todos sejam iguais, este não me serve. Já o Socialismo que falas, este que transcorreu na União Soviética, transcorre na China e em outros países, que segrega os diferentes, pretendendo a mesma igualdade que o capitalismo tanto prega, é só correia de transmissão do mesmo capitalismo que faz do mercado a sua referência e não do desenvolvimento humano e individual a sua bandeira. Não servem. Levam a humanidade ao desastre. destruindo a natureza, submetendo as diferenças ao império da igualdade dos que “mandam”. O Estado tem uma só razão de ser, que é a mesma das cercas que separam quintais: a propriedade privada dos poucos que são “mais iguais” a sí mesmos, por terem propriedades que a maioria não tem. O Socialismo não fracassou, por que de fato ele nunca foi implementado na sua plenitude. Esta plenitude só será possível, quando não houverem mais países, fronteiras, cercas, alambrados…Aí o homem, assim mesmo, no singular, poderá reinar, por que seu reino será o mundo, sem a pressão da produção e nem a obrigatoriedade do consumo mercantilista. Sinto muito que penses assim. Este pensar é o que faz que produzamos cada vez mais carros, cada vez mais produtos de “consumo” e fiquemos forçando todos a assimilarem falsas necessidades que só fazem ampliar a poluição, a degradação e a diferença entre os que tem e os que não tem. E pelo visto, culpas os que não tem por não ter. Mencionas Adam Smidt. Sugiro que leias a História da Familia, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels. Não tem nenhuma ideologia alí.É só a história da humanidade. Quem disse que “ter” propriedade e bens de consumo é tão importante? Só se for para quem vende os bens, pois para quem os tem, muitas vezes eles são absolutamente inúteis mas tu achas que precisas deles. E o estado contribui para isto, já que afinal, ele existe para fortalecer aqueles que são os donos dos meios que produzem estes bens que a propaganda convence as pessoas de que são fundamentais. Eu não tenho carro. Nem quero ter. Vivo muito bem assim. Uso metrô, ônibus, bicicleta, taxi. Não morrí por causa disto e nem tampouco deixei de ser o que sou. Mas tu e a grande maioria acha que tem que ter carro. Anda sozinho nele, quando o trânsito engarrafa, xinga o estado por que não faz estradas, etc… Sem falar na poluição que gera. Quando se dá conta de que de fato eu tenho razão, vais argumentar que o transporte coletivo precisa melhorar, etc… Mas tu não pegas o Õnibus. E aí o dono da empresa de ônibus diz que não tem passageiros suficientes para colocar mais ônibus, e tu continuas andando com teu carro, sozinho, engarrafando o trânsito junto com os outros, que afinal conseguiram ser tão iguais e já podem ter o que os iguais tem, um carro. E aí, para que todos tenham ganhos pra comprar carros, o governo facilita a compra de mais carros, pra que mais gente tenha emprego para comprar mais carros, pra poder andar por aí, dirigindo sozinho e engarrafando o trânsito e xingando o Estado que não faz… O mundo pode e deve ser diferente. E não é a sociedade do consumo insensível e nem a sociedade da propriedade privada que levarão o mundo a bom termo. Diz aí qual é a alternativa??? Mais consumo e mais mercado regulando pessoas para que sejam iguais, ou mais sociedade, reconhecendo as diferenças que há e valorizando o potecial e enxergando as necessidades de cada um?? O Socialismo não tem nada a ver com igualdade. Isto é coisa do capitalismo. O SOcialismo de verdade tem a ver com o reconhecimento das diferenças, lembra? “A cada um de acordo com suas necessidades e de cada um de acordo com suas possibilidades” Isto é do Manifesto da 1ª Internacional Comunista!! E vale até hoje!

O texto acima foi resposta ao seguinte comentário

J Faust escreveu:

Olá Luiz.
Se me permite, deixarei minha opinião. O texto ficou grande e caso leia ficaria muito agradecido. Bem, vamos lá.

Será que algumas de suas pré-suposições não podem estar erradas?

{{{ “O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência” }}}

Primeiramente, é bom deixar claro que não existe país 100% capitalista ou 100% socialista, quando na verdade esse “índice” varia de acordo com a interferência estatal na economia. Nos EUA se encontra relativa interferência estatal e em Cuba se encontra relativa iniciativa Privada. O Brasil encontra-se situado no meio desses dois quase extremos. Aqui podemos ver a estimada Liberdade economica de cada país: http://www.heritage.org/index/ranking

Sobre a remuneração do trabalhador, vejamos o caso do Brasil: Se o operário tem a oferecer a capacidade de apertar um parafuso, a empresa pagará sim realmente muito pouco, afinal o mercado brasileiro esta sobre-lotado de pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade que estão dispostos a fazer essa função. Já um tecnólogo em alguma área terá um maior salário que o caso anterior. Será mesmo que o Capitalismo erra em oferecer a cada pessoa um salário pelo que ela realmente pode proporcionar!?
Agora vejamos o caso de países como Austrália, Suécia, Coréia do Sul, etc… Nestes, diferentemente do Brasil, praticamente toda população tem acesso a segurança, saúde, (…) e principalmente, EDUCAÇÃO – o que proporciona um mercado de trabalho qualificado. Sendo o capitalismo “cego”, retribuirá aos trabalhadores bons salários de acordo com suas qualificações de forma justa e natural. Ocorrendo um efeito interessante, com a baixa oferta de mão de obra desqualificada, ela se valoriza, proporcionando até para o trabalhador menos qualificado uma boa qualidade de vida, esta que nenhum “país socialista” conseguiria alcançar. O efeito é quase um paradoxo, a evolução de países capitalistas os torna em um quase socialismo ideal, onde todos os cidadãos podem ter uma excelente qualidade de vida. Se queixar por algumas pessoas obterem mais suce$$o nesses países é querer institucionalizar a inveja.

Um dos erros do Socialismo é não perceber que os “meios de produção” não são escassos e fixos no mundo, não são produtores mágicos de riquezas que simplesmente precisam de um funcionário para o operá-lo – são criados e evoluídos pelo próprio capitalismo, ficam cada vez mais complexos, tendendo a diminuição do serviço braçal e o aumento da especialização, tornam-se cada vez mais interligados e abrangentes. É fundamental a ADMINISTRAÇÃO complexa de todo o setor produtivo, responsável pelo sucesso ou não de toda a indústria. No mercado atual a empresa que não estiver constantemente evoluindo e revolucionando todo o seu material humano e tecnológico estará tendendo a desaparecer. Os empresários não são simplesmente donos dos “meio de produção”, não apenas sentam na cadeira e esperam o lucro vir. Soa infantil não reconhecer a complexidade de gerir uma empresa.
Lembrando também que a riqueza não é algo fixo no mundo, onde necessariamente o enriquecimento de um implica no empobrecimento do outro, a riqueza é gerada.

{{{“O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro.”}}}

Talvez a maior das deturpações. O lucro das empresas resulta no que o consumidor ESCOLHEU comprar. A supremacia do modelo capitalista é ter o consumidor como “REI”, nós estamos toda hora dizendo O QUE DEVE SER PRODUZIDO e quanto estamos dispostos a pagar. Essa é uma das máximas do capitalismo. Você escolhe que marcas e produtos comprará, sendo mais um “voto” na multidão, dizendo o que deve ser produzido e que empresas se sobressairão. Se um produto começa a “sobrar” na prateleira, a sua produção é diminuida, caso rapidamente esgote, a produção é aumentada. As empresas são obrigadas pelo sistema a oferecerem o melhor custo-benefício para se sobressair no mercado. Já no regime “Socialista”, a elite estatal tenta em um ato divino dizer o que deve ser produzido, o que eu e você precisamos realmente, algo absurdo – para saber as consequências basta olhar a História.

{{{“vais ver milhões morrendo de fome na África. Não é por falta de comida, nem pelo desperdício na minha ou na tua casa, como a mesma televisão tenta nos fazer crer. As pessoas morrem de fome, por que os capitalsitas querem lucrar.}}}

O comentário não faz sentido. Se o motivo do capitalismo é lucrar, não seria a África um mercado alimentício enorme para os “perversos capitalistas” lucrarem?
Claro que sabemos a resposta, simplesmente falta renda para eles comprarem alimentos! O capitalismo não mata, a falta de capitalismo mata! O problema da África subsaariana é complexo, mas a principal barreira atualmente é falta de uma miníma base política que permita segurança para o desenvolvimento de uma economia.

A História tem como a sua maior contribuição a possibilidade de criarmos o futuro sem os erros do passado. Será que não basta o “Socialismo” ter fracassado na América, Europa, África e Ásia?
Gosto de citar os casos da Alemanha e Coréia, que tem dois dos povos mais organizados do mundo. Mesmo nesses locais o socialismo mostrou sua ineficácia. Na Alemanha após mais de 3 milhões terem fugido para o lado capitalista, o lado oriental teve que construir um muro com enormes barreiras, sendo que o contrário não ocorria, (o deslocamento do lado capitalista para o lado socialista). Já o caso da Coréia meio que dispensa comentários.

O poder vindo só de uma fonte cria um Estado autoritário, resultando em total falta de liberdade. Soma-se a tendência do ser humano crer que o seu interesse é o mesmo interesse da sociedade. Será que é interesse da população norte-coreana ter 1/5 de seu PIB em armamentos e o maior estádio do mundo? ou seria interesse da reduzida elite estatal?

É claro que o Socialismo parece um sistema muito mais bonito que o capitalismo, onde a sociedade ideal seria como a velha gravura do agricultor e o operário vivendo felizes em um sistema igualitário. O problema principal é que na prática, torna os produtos e serviços caríssimos e ineficientes. Vira economicamente desastroso, e consequentemente socialmente desastroso.

“não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse” – Adam Smith

“Eu posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las” – Voltaire

A discórdia gera reflexão!

Uma agenda para a esquerda só pode ser mundial

O que pode unificar distintas matizes da “nova” e da “velha” esquerda – contra as políticas de decomposição das funções públicas do Estado – é o exercício, pelo Estado, de políticas antagônicas às ditadas pelas agências privadas, que hoje orientam políticas e são responsáveis pela crise. O neoliberalismo teve a hegemonia abalada, mas não sucumbiu. Se os partidos de esquerda não reduzirem as taxas de pragmatismo e não se unificarem numa agenda avançada, o que obtivemos até aqui pode ser perdido. O artigo é de Tarso Genro. Pescado da Carta Maior.

Tarso Genro (*)

Conceber a obtenção de conquistas reais dentro do regime capitalista da selvageria financeira, implica considerar que o capitalismo – ele próprio – pode ser mais democrático, política e economicamente. Isso supõe aceitar que ele também pode sair da “enrascada” em que se encontra – sem que haja uma revolução – ainda mais forte, mais agressivo e ainda mais autoritário do que no presente. E que, via de consequência, essa saída pode e deve ser disputada, mesmo que não haja uma ruptura, pois dela podem resultar coisas piores, ou melhores para a humanidade. Nesta última hipótese, para perspectivas de menos guerras, menos injustiças e desigualdades, com a criação de um ambiente mundial política e culturalmente mais favorável aos ideais democráticos do socialismo: ou seja, criar condições fora da antítese do “quanto pior, melhor”, pois a vida tem demonstrado que “quanto pior, pior”.

Para que se concorde com esta análise sumária é preciso ter em consideração que a sua base histórica é a seguinte: parte-se do pressuposto que a disputa, hoje, é entre saídas neoliberais para crise, de um lado, e saídas neo-sociais-democratas, de outro. Não, infelizmente, entre saídas capitalistas e saídas socialistas “strictu sensu”. Esta última possibilidade, saída socialista, implicaria em conceber que estaríamos “novamente” à beira da crise geral do sistema, tanto do seu poder político, como militar. Como isso não é possível supor, é razoável entender que a disputa, na verdade, é sobre qual vai ser a próxima correlação de forças no período subsequente à crise, bem como as influências que ela deixará sobre as democracias políticas do ocidente.

O presente artigo, não tem o propósito de apresentar uma agenda “unitária” para a esquerda mundial, mas visa chamar atenção para a necessidade de construí-la, a partir das forças políticas de “dentro” de cada país. Este “dentro” contém “em si”, o “fora”, o mundo globalizado por inteiro na sua política e na sua economia. A repressão, o constrangimento, a repressão de “dentro”, no próprio sistema democrático, contém o “fora” sistemicamente. O “dentro” e o “fora” integram a mesma totalidade. O que implica dizer que não existem mais estratégias políticas “contra o fora”, como no período de formação dos estados nacionais, mas somente estratégias “com o fora”, ou seja, a transformação nacional e internacional está contida no mesmo processo transformador.

A internacionalização radical da política outorgada pela teoria ao proletariado universal foi realizada pelo anti-humanismo universal do capital financeiro, que capturou os estados e suprimiu soberanias. Quando se fala em agenda “unitária” em termos globais, porém, não se quer dizer “fechada”, totalizante, a ponto de criar a ilusão de que os movimentos “esquerdistas”, naquele sentido já clássico do jargão leninista, possam – por exemplo – valorizar eleições e governos, conquistas dentro da ordem e integração entre lutas sociais e ações de governo: políticas concretas de redução das desigualdades, reformas educacionais dentro da democracia política e crescimento econômico, com inclusão social e produtiva.

A reestruturação produtiva do capital mudou o perfil do mundo do trabalho e reorganizou as formas de compra da força de trabalho, nas regiões mais desenvolvidas do sistema capitalista global. Tal processo mudou a realidade que a esquerda deve lidar, porque as revoluções produtivas também vem alterando o modo de vida e a subjetividade do conjunto de grupos e frações de classes, de todos os setores assalariados e não assalariados. Aos excluídos, em geral, alocados como exércitos de reserva da produção industrial, somam-se -nos dias de hoje- os excluídos do conhecimento, dos novos padrões tecnológicos e das técnicas de acesso ao conhecimento. A vanguarda do trabalho produtivo e socialmente útil, está submetida, também, a um funil de passagem cada vez mais estreito e com diferenciações salariais internas cada vez mais gritantes. Inclusive já baseadas em novos tipos de sub-empregos, precariedades e intermitências.

Refiro-me, nesta análise, à situação do mundo do trabalho, não somente assalariado, dos países que formam o núcleo e a periferia industrializada do sistema-mundo. São os lugares onde tem chances de ocorrer os movimentos políticos e as lutas mais agudas, com alguma capacidade de interferir na situação caótica do mundo globalizado.

Neste quadro, as “mensagens”, as “palavras-de-ordem” tradicionais e análises clássicas da esquerda, alicerçadas naquilo que foi conformado pelo marxismo dominante (como ideologia do proletariado clássico), não mais se reportam aos verdadeiros dramas do mundo do trabalho. Ele está espremido pelo desemprego tradicional, nas novas formas “livres” de prestação de serviços, na desvalorização do trabalho mecânico da fábrica moderna e no império do trabalho imaterial nas redes. A predominância da ética da descartabilidade vem liquidando com a velha ética do trabalho fabril, que chamava as consciências para o público e não para a privatização das emoções.

Nos territórios do ocidente em que isso ocorre, as mudanças expressivas na produção material e imaterial, também já passaram a não respeitar, integralmente, as fronteiras entre tempo de trabalho e tempo privado: entre vida cotidiana e processos do trabalho, entre lazer a trabalho. A dependência jurídica – e a submissão política no interior da fábrica moderna – se é verdade que vem libertando da tutela patronal direta os trabalhadores da vanguarda produtiva (os ligados aos “bits”, à info-digitalidade e à informação, por exemplo) e criando, ao lado deles, legiões de excluídos e baixos assalariados, vem também intensificando as formas mais duras de expropriação do trabalho imaterial. Seus métodos de dominação impulsionam a adesão a novos “modos de vida”, cuja sociabilidade tende a reproduzir, em tempo integral, a exploração da força de trabalho imaterial.

As novas formas de produção também vêm reduzindo a responsabilidade social das empresas -cada vez mais alheias à preservação de um estoque mínimo de trabalhadores comuns qualificados – e, ainda, aumentando o controle pelo resultado e a fragmentação de tarefas. Tanto na concepção como na realização. Assim, fica mais reduzida a subordinação direta contratual: reduz-se a integração do trabalhador na vida coletiva da empresa e também a responsabilidade empresarial sobre os contratos, mas aumenta a subordinação geral, de classe, pois os movimentos coletivos dos trabalhadores ficam mais fragilizados. Nesta hipótese, há uma transcendência da dominação tradicional da subordinação fabril, para uma dominação completa da vida por inteiro.

Tal contexto abarca a natureza do consumo, a redução do espaço público para a fruição livre, a uniformização de uma indumentária que integra, pela aparência, os setores assalariados com os padrões das classes privilegiadas. É notório, ainda que, cada vez mais, o próprio lazer é “produzido” como lazer mercantil, ditado e ocupado por inteiro pela acumulação. Os mega-shows dos mega-artistas, com mega-públicos e mega-custos, constituem os mega-espaços “rebeldes”, onde rebelião, mercadoria e consumo, dominação e liberdades formais, erguem os novos templos das culturais globais. Estas, já iconizadas num espaço onde tudo é aparente identidade coletiva, mas, para cada um dos indivíduos ali presentes, tudo é expressão da sua concreta singularidade.

Lukács dizia, para justificar a passividade dos operários alemães, perante as propostas revolucionárias, que eles ainda “tinham anõezinhos nos jardins”, para atrair “sorte” e espantar o “mal”, o que seria o símbolo do seu atraso. Isso corresponderia, hoje, a dizer que os potenciais de rebelião da maioria dos jovens de todos os setores assalariados de renda média e baixa, contra as injustiças, estão temporariamente suspensos pelas luzes feéricas dos concertos de Elton John e pelas lembranças das belas canções de Fred Mercury, embora estes artistas não tenham gerado a sua arte para esta finalidade. É lazer, cultura, artes visuais com novas tecnologias, subjetividades pulsantes, mais drogas e álcool, não como livre opção existencial, mas como decurso da lógica do mercado: modo de vida capturado para o anonimato em busca de um sentido.

Os novos e antigos movimentos sociais, que estão no centro da questão democrática, os “sem” teto, terra, proteção social, os hóspedes das praças, os rebeldes das redes sociais, os que não cabem no sistema, os indignados, querem os seus direitos e a sua parte no sistema. Parte destes setores, originários da classe média fragmentada, nem imagina que as suas demandas integrais por inclusão, não podem ser acolhidas no sistema, pois a transição para o “cume”, isoladamente, nos melhores postos de trabalho, só pode ser molecular. Podem compreender, porém, que é possível uma transição de parte deles -de alguns grupos que estão “fora”, para “dentro” do sistema, abrindo fendas na sua ossatura férrea. No caso , podendo gerar novos mecanismos democráticos de gestão no sistema, alargando a influência da ação política para a resolução da crise que os expeliu.

É o capítulo da disputa pela a hegemonia, portanto, para instituir políticas de desenvolvimento e políticas públicas de coesão social, que apontem para um novo Contrato Social, cuja bases não são somente as instituições republicanas clássicas, mas as combinações destas instituições com as formas de democracia direta, presenciais e virtuais. O sistema atual é, por natureza, limitadamente democrático e centralizador, e a sua unicidade supranacional é determinada pela força coercitiva do capital financeiro globalizado. A participação direta na gestão pública é, por natureza, democrática e aberta. A sua unidade global é demandada pela democracia política, que repele, dentro dos quadros da constituição política, o autoritarismo e a centralização burocrática inerentes ao sistema.

Só a democracia política exercida de forma plena, sobre a gestão do Estado e na definição das suas políticas globais, é capaz de expor a desumanidade das contradições que separam, cada vez mais, regime democrático e capitalismo. O desequilíbrio entre o regime de acumulação, forçado pela especulação, e a necessidade de tomada de decisões públicas no âmbito da democracia, sugerida pela política limitada pela representação, institui desigualdades cada vez mais graves, entre as classes sociais, internamente, e os estados nacionais na geoeconomia global.

Estas desigualdades também ocorrem na escala salarial interna da empresas e na estrutura de salários do funcionalismo estatal. São diferenciais de renda que também são apropriados – a partir das “sobras para poupança” dos altos salários – para fortalecer os laços do capital financeiro com esta nova massa de “rentistas”. Ela faz fluir parte dos seus recursos para a ciranda do lucro financeiro.

As formas e os meios pelos quais as crises serão solucionadas -sejam as soluções engendradas pela soberania estatal ou pelas agências de risco- é que determinarão a correlação de forças no próximo período. Só a recuperação da força normativa e da legitimidade política do Estado é que pode gerar um centro aglutinador de poder para enfrentar, concomitantemente -na esfera da política e da economia- uma nova saída neoliberal, ainda mais autoritária e elitista, para a crise do capital, que certamente estender-se-á, no mínimo, por mais cinco anos.

A crise emendou a vitória do tatcherismo sobre a esquerda européia com o fim da URSS; a crise do “sub-prime” com o “euro”; a ocupação do Iraque com o fracasso do Presidente Obama; a emergência do Brasil no cenário mundial com a “flexibilização” da social-democracia européia. O que pode, neste contexto, unificar distintas matizes da “nova” e da “velha” esquerda -contra as políticas de decomposição das funções públicas do Estado- é o exercício, pelo Estado, de políticas antagônicas às ditadas pelas agências privadas, que hoje orientam as políticas de Estado e são responsáveis pela crise. Não é a derrubada do Estado para a instalação de uma nova ordem, que, de resto sequer tem suporte social para configurá-la, que está na ordem do dia.

Os leninistas clássicos precisam compreender que a classe operária é vanguarda apenas para defender os seus direitos no emprego, o que é potencialmente transformador; os sociais-democratas tradicionais precisam compreender que já se afundaram demais no liberalismo economicista e faliram, tanto quanto o regime soviético – e que o resgate dos ideais sociais-democratas só é possível com mais democracia, não com menos -; os radicais do corporativismo precisam compreender que nem revolução, nem cirurgia, podem ser “permanentes” (senão gangrenam), mas que, se as saídas da crise atual se derem nos marcos da rendição grega, mais distantes todos estaremos de qualquer utopia.

Trata-se de um período não revolucionário e de reação política, de falência tanto dos modelos socialistas dito marxistas, como dos modelos da social-democracia clássica: o neoliberalismo está com a sua hegemonia abalada, mas ainda não sucumbiu.

As demandas por direitos, dos movimentos sociais que lutam pela água, pela defesa das suas culturas, das suas terras, do ambiente natural protegido da lógica mercantil; as lutas pela inclusão educacional, pelo direito ao trabalho produtivo ou improdutivo (este voltado para recuperação da natureza depredada), para o cuidado dos velhos e das crianças; as lutas para melhorar as prestações sociais do Estado, as lutas dos trabalhadores por seus direitos, as lutas democráticas pela transparência e pela ética pública, não terão resultados práticos nem estimularão demandas mais complexas, se não tiverem resultados no cotidiano das pessoas, que está subjugado pela ideologia do mercado. Para que o resultado possa ocorrer, porém, é preciso subtrair o Estado da tutela do capital financeiro, que crescentemente esgota a sua capacidade de financiar políticas públicas de dignificação da vida comum. Isso certamente não ocorrerá fora da política, seja ela processada na sociedade civil, para interferir sobre a gestão do Estado, seja ela intra-estatal, a saber, a que se processa entre as instituições e agências políticas, administrativas e financeiras do próprio Estado.

A integração, portanto, das “lutas sociais” com as “lutas políticas” tradicionais, promovidas pelas esquerdas modernas e pós-modernas, pode ser baseada numa agenda comum, que remeta para a recuperação das funções públicas do Estado. Todavia ela não surtirá efeito sem um confronto que tenha diversas origens no cenário global, seja através de eventos como o Fórum Social Mundial, de manifestações pontuais (ainda que impotentes até agora), como as dos indignados espanhóis e dos rebeldes e Wall Street, ou mesmo como as reformas do neo-constitucionalismo boliviano, com a sua árdua tarefa de compatibilizar modos de vida secularmente arraigados e “arcaicos” – tanto do ponto de vista do capitalismo como do socialismo por razões diferentes – com a república, a modernização produtiva e a agregação de valor.

Num outro lugar destas lutas, mas olhando para uma mesma direção, estão as eleições periódicas nas democracias capitalistas mais avançadas, como as que ocorrerão brevemente na França. São elas que, até agora, tem tido potência para -no âmago do Estado- tanto dar sustentação, como desenvolver contrapontos fortes ao neoliberalismo. Os governos nacionais, regionais e locais, que se opõem à “tutela grega” podem ser, juntamente com os movimentos sociais e os partidos de esquerda e do centro democrático, os “agendeiros” do próximo período de lutas, como o Brasil fez na América do Sul.

Embora nosso país tenha começado um novo modelo econômico e desenvolvido uma política de articulação global, para reduzir os efeitos da dominação dos bancos e das agências privadas sobre a nossa economia, sabemos que o desfecho deste processo não é ,nunca, um desfecho exclusivamente nacional. Seu desfecho, ou é vitorioso também no espaço político global ou será derrotado. A extorsão permanente do nosso trabalho e do desenvolvimento industrial e comercial do país, continua sendo processada através da drenagem de riquezas através dos juros e serviços da dívida, que ajudam o sistema especulativo global a manter-se forte. A “confiança” dos investidores no Brasil -refiro-me aos investidores da especulação financeira- é a confiança do “senhor” sobre o “escravo”, pois o “senhor” sabe que o “escravo” não tem outra saída, por enquanto, que não a de continuar submetido.

Se os partidos de esquerda não reduzirem as suas taxas de pragmatismo e não se unificarem numa agenda política avançada, inclusive em termos de reforma política, não atentarem para esta nova etapa estratégica -que deverá ser enfrentada pelo nosso Estado Democrático e suas instituições políticas- tudo que obtivemos até agora poderá ser perdido. O fortalecimento democrático, financeiro, político e militar, do Estado brasileiro (combinado com ousadas políticas de combate às desigualdades sociais e regionais), é a grande contribuição que o nosso país pode dar ao mundo para uma saída da crise por fora da tragédia grega.

As eleições municipais deste ano no Brasil e as eleições nacionais na França, constituem uma modesta preliminar deste novo enredo em direção a 2014 e aos próximos dez anos, para formatar a próxima correlação de forças em escala política globalizada.

Não é de graça que a esfera da política é tão udenisticamente atacada pelos principais meios de comunicação que sempre apoiaram as reformas neoliberais, e também tão atacada pelos pequenos partidos esquerdistas com o mesmo viés moralista. Uns e outros descartam o fortalecimento de um Estado público. Os primeiros porque isso faz mal ao neoliberalismo. Os segundos, porque o fortalecimento democrático do Estado descarta a ilusão revolucionária, que alimenta os seus rarefeitos adeptos que esperam a “crise geral”. Agora sim, sem saída.

(*) Tarso Genro é governador do Estado do Rio Grande do Sul

O PT, o governo e as relações com o PSD

A Presidenta Dilma no ato comemorativo dos 32 anos do PT

Quando o PT resolveu participar da política nacional, se dispôs a entrar num jogo onde as regras são desenhadas a partir de composições partidárias que nem sempre tem afinidades ideológicas muito grandes. Foi assim que chegamos a presidência da república e já repetimos mais duas vezes o feito. Em 2002  a “Carta aos Brasileiros” não só corroborou as regras do jogo, mas pela primeira vez, além da emoção que sempre moveu a esquerda, com a razão elaboramos o documento que selou um acordo com parcela da burguesia nacional e nos deu fôlego para desenhar o futuro que estava por vir e hoje se concretiza na maior movimentação econômica da base da pirâmide social brasileira: mais de 30 milhões saíram da extrema pobreza e acenderam patamares de classe média. Além disto, o Brasil, de devedor internacional passou a grande credor econômico, já é a 6ª economia do mundo e se encaminha para ser a quinta economia mundial em pouco tempo. São avanços significativos obtidos a partir de um processo democrático e de convencimento de parcela das elites brasileiras de que de fato construíamos o bom caminho e o provamos. Governar exige a capacidade de construir alianças. Foi assim que aplicamos um revés ao neo liberalismo no Brasil. É verdade que não o derrotamos. Ele está bem vivo em outra paragens do mundo e hoje impinge graves derrotas aos trabalhadores e aos povos europeus. Derrotas estas, muitas vezes capitaneadas por quem um dia se disse representante da classe trabalhadora, caso da Social Democracia Européia. Aqui, em terras latino americanas, pelas vitória retumbantes de governos nacionalistas e pela política nacional desenvolvimentista aplicada no Brasil, superamos a crise econômica e nos transformamos  em referência mundial. Tudo isto foi possível pela competente capacidade do PT em buscar aliados nos mais diferentes campos e que estivessem dispostos a construir conosco as mudanças previstas em nosso programa de governo. Não tenho grandes problemas em aliar com o Kassab e a turma dele. Afinal, já coligamos com  PMDB, PTB, PL, PP, que não diferem tanto assim deste mais novo partido surgido da diáspora da oposição sem discurso e sem projeto. Isto não nos impediu de fazer profundas mudanças, benéficas ao povo brasileiro, aos mais necessitados e a própria nação brasileira, que resgatou o orgulho pátrio. Não. Não me assusta fazer aliança como Kassab e com esta gente. O que me assusta é a incapacidade do PT elaborar políticas para além do governo. O governabilidade é um problema do governo e precisa de composições para gerar maioria. No caso do brasil, sabemos nós, estas alianças muitas vezes são fisiológicas, custam cargos, emendas parlamentares, quando não, nos submetem a vexaminosas denúncias de corrupção no seio do governo. É assim que é. Mas poderia ser diferente. Uma Reforma Política que acabe com o financiamento privado de campanhas, instituindo o financiamento público, que garanta o voto em lista, dando assim maior poder aos programas partidários e ideológicos, que impeça alianças locais, constituindo as nacionalmente e calçadas em programas de governo previamente estruturados de frentes partidárias que sejam julgados nas eleições, é um dos caminhos que temos para nos desvencilharmos das incômodas alianças que hoje fazem parte das regras do jogo. Ao PT cabe propor à sociedade o debate sobre a Constituinte Soberana e Exclusiva. Se a bandeira num primeiro momento não mobiliza as multidões, por não ter o apoio da grande mídia, a história nos mostra no entanto, que o PT já começou praticamente sozinho movimentos como o das diretas já, que acabaram ganhando as massas, num período onde isto poderia ainda significar prisão e perda de emprego para o povo que ia para a rua reivindicá-las. Outras Reformas também são necessárias. A tributária, a Agrária, a administrativa e também a da segurança pública, ainda militarizada e departamentalizada.  A Presidenta Dilma em seu pronunciamento nos 32 anos do PT convocou militantes, intelectuais, pensadores a ajudar na construção de um Brasil mais justo, com mudanças estruturais e também com movimentação de ideias. “Uma grande transformação está em curso no Brasil e deve ser acompanhada de um grande movimento de ideias”. De acordo com ela, não há mudança social sem mudança cultural.

Ou o PT propõe e elabora o novo, alterando democraticamente as regras do jogo, com a participação popular em uma Constituinte, como a Presidenta pediu , ao falar das mudanças estruturais e culturais que precisam de novas idéias para se concretizarem, ou sucumbirão os direitos e avanços obtidos até aqui, por que as regras do jogo já não permitirão ir além. Não são portanto as alianças, sejam elas quais forem, que prejudicam a luta e nos fazem avançar menos do que poderíamos. O que nos faz andar mais lentos do que poderíamos, é a ainda pouca elaboração do PT para além do bom governo que ousamos construir.

Aliás, participei do ato de aniversário do PT. Foi emocionante ouvir “A Internacional” ser cantada na abertura do evento. Vi muitos dos presentes se emocionando também. Que esta emoção, que fez o PT construir os caminhos para o Brasil orgulhoso de si que temos hoje, ilumine nossa direção para, com esta emoção, mediada pela necessária razão que nos norteou até aqui, conduza as Reformas necessárias e ilumine o caminho para a construção do Socialismo democrático que todos almejamos para a humanidade inteira.

Será um feliz ano novo?

Por Tarso Genro

Foto do Movimento Ocupa POA realizado no dia 15/10/2011, como parte do movimento mundial convocado através das redes sociais

“Os setores emergentes não têm origem em paternalismos populistas e não são massa de manobra; sua mobilização vai oxigenar a vida pública do país”, escreve Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul – PT .

Segundo ele, “a aceleração no combate às desigualdades é que vai resolver se teremos um bom ano novo para as democracias latino-americanas”.

Eis o artigo.

O ano de 2012 será decisivo para o Brasil e para a América Latina. Não se trata de uma crônica de ano novo. É uma afirmação criteriosa, fundamentada em dois cenários, um interno e outro externo.

No externo, há o cansaço tanto da social-democracia como da ideologia thatcherista-neoliberal.

A social-democracia cansou a paciência de todos, em regra, porque a sua adaptação aos novos tempos -de crise do financiamento do “estado de bem-estar”- fez com que ela cultuasse a globalização financeira e passasse a se escravizar nas suas receitas.

De outra parte, o cansaço da ideologia do neoliberalismo adquiriu seu auge na evidência de manipulações fraudulentas, pelos bancos e governos, da situação real dos estoques da dívida pública. Mais uma vez houve frustração e tédio com os seus discursos sem cor.

No cenário interno, tanto brasileiro como latino-americano, vários são os governos, com orientações distintas, que conseguiram conquistar apoio parlamentar e social para não aplicar as regras neoliberais, com objetivo de sair das suas crises e melhorar a vida do povo.

A “melhora da vida do povo”, no âmbito de uma crise mundial com intervenções militares brutais e com castração de direitos sociais nos países de capitalismo avançado, é um dado relevante para avaliar a importância do próximo ano no futuro da democracia na América Latina.

Como é sabido pela ciência política e comprovado empiricamente, nem sempre a democracia gera progresso socioeconômico para a maioria, assim como nem sempre as ditaduras pioram as condições de vida dos cidadãos.

Avançar socialmente dentro da democracia não é pouco. Assim como não é pouco fazer governos serem compreendidos pelos seus povos pelo que estão fazendo e melhorar a renda e a autoestima dos mais pobres dentro de um amplo processo democrático. É muito.

E mais: a inclusão massiva de grupos populacionais no consumo, na produção e na educação gera novos sujeitos sociais e novas demandas. Alguns exemplos: melhor comida, melhor habitação, um melhor carro do ano, mais lazer qualificado, mais educação e melhor transporte coletivo, além de mais segurança para fruir a vida.

A aceleração no combate às desigualdades é que vai resolver se teremos um bom ano novo para as democracias latino-americanas.

A aceleração no combate aos privilégios, dentro e fora do Estado e das empresas públicas e privadas, reduzindo as diferenças de renda e de salários – tanto na esfera pública como na esfera privada -, é que vai criar coesão entre as classes sociais emergentes, o Estado de Direito e a democracia.

Esses novos setores sociais não são massa de manobra de ninguém. Eles não se originam de paternalismos populistas nem de conquistas de burocracias sindicais. Não são “aparelháveis”, pois são dispersos na estrutura produtiva, de serviços e na estrutura de classes.

Eles não são “classe média” frustrada ou raivosa. São os “de baixo”, que apareceram nas urnas e reelegeram Lula e elegeram Dilma. Aparecem nas estatísticas do ProUni, dos novos empregos e das novas atividades na produção e nos serviços.

Esses é que têm potência para constituir – em irmandade política com os demais setores do mundo do trabalho – um consenso superior, forjado a partir das suas mobilizações para a oxigenação da vida pública democrática.

Isso só poderá ser feito diretamente pela política e pelos partidos, na minha opinião os de esquerda, e cada vez menos através de demandas corporativas e setoriais.

A agenda do combate às desigualdades sociais deverá ser a pauta de uma esquerda revitalizada, que já cumpriu tarefas importantes no Brasil e na América Latina, após o ciclo das ditaduras cujos fantasmas ainda nos visitam.

Pescado do Correio do Brasil


Luiz Müller

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