A nova vida dos pedreiros, símbolos da ascensão da classe C

Por Lilian Primi

João Donizete Ferreira trabalha na construção do prédio em que irá morar, em Campinas (SP). No final do expediente, vai para casa em um Toyota. Foto: Samuel Lorenzetti

Uma das surpresas do Brasil “da vez”, a inversão de mão no mercado de trabalho está criando uma classe de consumidores no Brasil que provoca polêmica entre os acadêmicos e desorienta o comércio. Valorizados pela escassez, trabalhadores antes sujeitos a contratos precários e alta rotatividade, hoje escolhem a melhor oferta. Um bom pedreiro pode facilmente atingir uma renda mensal de 15 mil reais em São Paulo como mestre de obras, somando registro na carteira e bicos eventuais. Caso aceite trabalhar em outro estado, este pode ser o seu salário em carteira, mais benefícios como uma passagem aérea por mês para visitar a família e hotel pago pela empresa.

“O engenheiro que trabalha comigo ganha 4 mil reais”, conta Joaquim Ferreira da Silva, 62 anos, mestre de obras em São Paulo com salário de 9 mil reais em uma grande construtora.  Também faltam engenheiros, porém experientes. Estes não gostam de dizer quanto ganham. O engenheiro colega de Joaquim é recém formado, enquanto ele já se aposentou e só continua trabalhando porque tem “algumas contas para pagar”. Não que ele passe por dificuldades. O carro é zero quilômetro e os eletrodomésticos de sua casa estão todos atualizados, incluindo computador e tevê plana, e a sua esposa, Célia, já não precisa mais costurar para fora. “É que ele ficou um tempo desempregado e as contas não param”, justifica a mulher.

Para o economista Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e autor do mais recente estudo publicado a respeito  (Nova Classe Média?, deste ano), este comportamento é típico da classe trabalhadora, remediada nos últimos anos em virtude da política de distribuição de renda adotada pelo governo na última década. “As famílias que ascenderam não tinham nada. Quando a renda melhora, todo o ganho vai para o consumo imediato”, explica. Para Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas e autor de outro estudo sobre o mesmo tema (Nova Classe Média, de 2011), a família do pedreiro Joaquim – filho de agricultores mineiros que perderam suas terras no final dos anos 60 -, compõe a nova classe média brasileira. Seu primeiro emprego veio quando a família se mudou para São Paulo, em 1969, para tratar a mãe, com mal de chagas. Nesta época o tempo de contribuição ao INSS ainda era anotado na certeira de trabalho e ninguém ganhava mais do que o salário mínimo.

“Meu pai vendeu a fazenda para pagar o tratamento e eu fui trabalhar de servente na obra, com 16 anos, por falta de opção”, lembra. Ganhava menos do que o mínimo. Viveu o milagre dos anos 70, mas a família não evoluiu. “Não pude estudar, mas meus filhos, todos estudaram”, conta, reflexo direto da mobilidade social que ocorreu no país segundo avaliação dos dois pesquisadores. Nenhum dos filhos seguiu a carreira do pai. José, o mais velho, se formou em web design e trabalha numa grande empresa; Eléia é dona de casa e estudou até o segundo grau e Ediléia também é web designer. “Trabalhei por oito anos, mas agora parei, para cuidar do meu bebê”, conta. E o caçula, Jonatas, cursava direito, mas trancou a matrícula este ano. “Ele ainda não sabe direito o que quer”, explica a mãe.

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“Há falta de interesse entre os mais jovens nas atividades braçais, o que está provocando um envelhecimento da força de trabalho nos canteiros da construção”, diz Neri, que fez uma avaliação específica do setor, por encomenda da Votorantim. “É preciso que o mercado perceba essa valorização e que a indústria da construção aumente a sua profissionalização, criando planos de carreira. Só assim os jovens irão se interessar novamente”, diz Neri. Pochmann explica que a valorização dos salários na construção tem contornos diferentes porque o setor ficou paralisado por quase duas décadas e, portanto, não formou mão de obra – o que é feito na prática nas profissões de ofício -, mas ressalta que ela se estende para várias outras atividades braçais e que este não é um fenômeno tipicamente brasileiro. “No primeiro mundo essas atividades também são muito valorizadas e pelo mesmo motivo: a falta de trabalhadores interessados.”

Segundo Pochmann, a criação de vagas com remuneração na faixa de até 1,5 salário mínimo representa 95% do total criado no período. Ele localiza 72,4% destas vagas nos setores de serviços (6,1 milhões, ou 31%), comércio (2,1 milhões), construção civil (2 milhões), escriturários (1,6 milhão), indústria têxtil e vestuário (1,3 milhão) e atendimento público (1,3 milhão), em um total de 14,4 milhões. Há dificuldade em fechar as vagas em praticamente todos os setores e as estatísticas não conseguem perceber a distorção nos salários. “É que este grupo é parte de um universo muito grande. Dá traço”, explica.

Mobilidade X evolução

Joaquim Ferreira da Silva, 62 anos, com sua família: ele é mestre de obras em São Paulo com salário de 9 mil reais em uma grande construtora. Foto: Olga Vlahou

Joaquim é diretor do sindicato dos pedreiros de São Paulo há mais de dez anos e também foi candidato – não eleito – a vereador em 2008. Reconhece a influência das políticas de governo na melhora da economia do país, com reflexos positivos em sua vida.  Já seu colega de profissão, João Donizete Ferreira, 53 anos e pai de três filhos já casados, acha que cresceu por conta do apoio que recebeu do patrão e do seu esforço pessoal. Admite a influência das políticas de distribuição de renda depois de questionado. Contrariando o poeta, trabalha na construção do prédio em que irá morar, na cidade de Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo. O apartamento é sua compra mais recente. No final do expediente, vai para casa em um Toyota, também comprado este ano. “Não é zero, é seminovo”, ressalta. Ele evita dizer quanto ganha, apenas diz que é “um bom salário”.

Assim como no caso da família de Joaquim, seus três filhos estudaram e não querem, nem ele gostaria, seguir carreira num canteiro de obras. E sua casa é equipada com eletrodomésticos de última geração. Seus pais também vieram, na mesma época, do campo, onde plantavam café e lidavam com gado na região da cidade de Garça. “Não eram proprietários de terra e a vida era muito difícil. Meu pai decidiu mudar para Campinas numa tentativa de melhorar”, conta. Foi neste momento que Donizete começou sua vida profissional, aos 16 anos exatamente como Joaquim, só que como cavalariço no Jóquei Clube, ao lado do pai. “Adorava os cavalos. Só parei porque proibiram empregar menores e fui demitido”, conta. Os dois conseguiram se formar no segundo grau depois de adultos, Donizete por incentivo da esposa. Joaquim ainda sonha cumprir o ditado que diz que uma boa família deve ter um advogado, um médio ou um engenheiro. “Tinha o Jonatas, mas ele não se encontrou como advogado”, diz. “Quem sabe se você não vira um?”, sugere sua esposa. “Por que não?”, considera Joaquim. Donizete também pensa em continuar os estudos.

Neri e Pochmann concordam que o Brasil vive uma transformação histórica, de crescimento sustentável da economia com distribuição de renda, num movimento ininterrupto que já dura 12 anos e não dá sinais de que vá ser interrompido. Mesmo com o mundo em crise. A polêmica está no tipo de sociedade que irá emergir desta transformação. Enquanto Neri vê a explosão de consumo como um reflexo do lado brilhante dos pobres, que se atualizaram e passaram a viajar mais e comer melhor, Pochmann aponta para a alienação e para o consumismo como um sinal preocupante. “Houve aumento do consumo, porém uma redução nos investimentos em educação. E queda nos índices de sindicalização.” No grupo de assalariados formais, em 1999 os sindicalizados representavam 32,9%, enquanto em 2009, caíram para 29,7%. Na sua avaliação, no milagre econômico dos anos 70, apesar e em virtude da opressão das classes trabalhadoras e da forte concentração de renda, houve um processo de conscientização com consequente organização política maior do que ocorre atualmente.  ”Hoje á um retrocesso, a ponto de muitos defenderem a pena de morte, algo ultrapassado nas sociedades mais evoluídas”, argumenta.

Neri aponta a distribuição de renda como a grande mola da evolução social. Entre 2001 e 2009, a renda dos 10% mais ricos aumentou 1,49% ao ano, enquanto a dos mais pobres cresceu 6,79% ao ano. “O lado brilhante dos pobres é a percepção de que tem a possibilidade real de melhorar de vida. Já para os ricos o país naturalmente vai mal. É a parábola do copo meio cheio ou meio vazio”, diz. Quanto à educação, prefere ressaltar o fato de que os que ganharam aumento na renda hoje são os trabalhadores que estudaram mais no passado. “Aumentos nos anos de escolaridade no período de 2003-09 são responsáveis por 65,3% do expressivo crescimento de 7,95% da renda per capta média dos 20 mais pobres”, escreve.

Enquanto a academia, a indústria e o varejo se esforçam para descobrir para onde vão os emergentes, Joaquim e Donizete fazem planos, que passam longe dos canteiros, apesar de estarem satisfeitos com a vida que levam. Joaquim, já aposentado, diz que vai trabalhar mais um ano e parar de vez, para se dedicar apenas à atividade como pastor. E se prepara para fazer a sua primeira viagem internacional em setembro. “Vou visitar a minha igreja em Miami”, conta. E Donizete diz que vai juntar dinheiro para montar um negócio quando se aposentar. “Ficar parado não vou e na obra o trabalho é muito desgastante. Talvez uma loja de material de construção. É mais light.” Nenhum dos dois tem poupança.

Pescado da Carta Capital

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