Tiradentes: A Construção Simbólica do Herói Nacional

Pescado do  Diário Liberdade

220411_TiradentesBlog do Hugo Freitas – [Hugo Freitas] A questão da imagem do “Cristo Cívico” construída em torno de Tiradentes como símbolo republicano dos militares que depuseram a Coroa de D. Pedro II, há alguns anos vem sendo debatida na academia, mas sua divulgação é quase restrita aos círculos academicistas.


Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, foi uma figura utilizada pelos republicanos no final do século XIX para edificar a imagem de um “herói nacional”.

Segundo José Murilo de Carvalho, em sua obra A Formação das Almas, a imagem de Tiradentes foi apropriada pelos militares que destronaram o imperador D. Pedro II e impuseram a República pela força das armas, através de um golpe arquitetado por algumas correntes do Exército Brasileiro, descontentes com a situação política do Império, principalmente após a Guerra do Paraguai (1864-1870).

Como o novo regime precisava de legitimidade popular, trataram logo de buscar na História do Brasil alguns símbolos que representassem o novo ideário de governo que surgia naquele momento. Encontraram, então, na Inconfidência Mineira (ou Conjuração Mineira) o símbolo perfeito: o sacrifício de Tiradentes pelo ideário republicano.

A Inconfidência Mineira foi uma tentativa de revolta abortada pela Coroa Portuguesa em 1789, ainda no período colonial, em pleno ciclo do ouro, na então capitania das Minas Gerais. Entre os motivos da revolta, estava a alta cobrança de taxas e impostos de Portugal sobre o ouro obtido pelos brasileiros mineradores. Quem não pagasse o “quinto”, ou seja, vinte por cento do total do ouro encontrado, era passível da “degredação”, isto é, ser enviado à força para território africano.

Além disso, com a expansão da corrida do ouro, a Coroa começou a cobrar a “derrama”, que consistia na estipulação de valores anuais a serem repassados à corte portuguesa por região explorada. O descumprimento era punido pela invasão de casas pelas tropas patrícias para a pilhagem de pertences até completar o valor devido.

Tudo isso foi gerando um quadro explosivo de insatisfação popular, contemplando os proprietários rurais e donos de minas, além de intelectuais e membros da elite mineira, que queriam mais participação política nos rumos da Colônia, alimentados que estavam pelas ideias iluministas que emanavam da Europa através da Revolução Francesa.

A saída encontrada pelos descontentes com a Coroa foi a luta pela independência do Brasil. Para alguns historiadores, a Inconfidência Mineira significou a luta do povo brasileiro pela liberdade contra a opressão da Metrópole portuguesa e pela instauração da República como novo sistema de governo.Os inconfidentes chegaram a definir até mesmo uma nova bandeira para o Brasil. Ela seria composta por um triângulo vermelho num fundo branco, com a inscrição em latim : Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que Tardia). A Bandeira idealizada pelos inconfidentes foi adotada pelo estado de Minas Gerais.

Contudo, o que ficou registrado de fato na História do país e, até os dias atuais, continua sendo reificada é a postura de Tiradentes diante da condenação à forca, um homem que morreu por seu ideal de liberdade e de República. Eis o “herói” se apresentando aos olhos dos construtores da identidade nacional republicana.

Segundo o historiador Paulo Miceli, em O Mito do Herói Nacional, Tiradentes jamais teve barba e cabelos grandes. Como alferes, o máximo permitido pelo Exército Português seria um discreto bigode. Durante o tempo que passou na prisão, Tiradentes, assim como todos os presos, tinha periodicamente os cabelos e a barba aparados, para evitar a proliferação de piolhos, e, durante a execução estava careca e com a barba feita, pois o cabelo e a barba poderiam interferir na ação da corda.

Para José Murilo de Carvalho, a imagem do “Cristo Cívico” está atrelada à forte religiosidade católica brasileira e à identificação popular com a figura de um mártir sacrificado, tal como Jesus. “Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do futuro. Pelo contrário, ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura” (José Murilo de Carvalho).

Se a História, entre as suas inúmeras funções, ainda pode ser considerada magistra vitae, isto é, mestra da vida, que seja para ensinar-nos que o ato de se entregar a vida por uma causa, de caráter justo e popular, não deve ser algo digno de mera contemplação, mas de inspiração, a fim de que cada cidadão possa contribuir integralmente com sua parte para a transformação sociopolítica de seu povo.

Sejamos todos heróis de nós mesmos, na labuta diária e nas reivindicações por melhorias sociais.

Hugo Freitas é historiador, sociólogo, jornalista e mestre em Ciências Sociais (UFMA).

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